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Este texto poderia ter vários títulos além do que lhe foi atribuído: o obsessivo e o corrupto, o legal e o ilegal, o normal e o anormal, o certinho e o malandro…

Mas vamos falar de algo mais abstrato: a regra e a exceção.

Num país como o Brasil, cujo presidente do Senado é comprovadamente sonegador de impostos, adúltero e corrupto, a discussão vem sempre a calhar.

Mas, a questão é também da micro-política: a sala de aula, o trânsito, a fila… Situações quotidianas que trazem o dilema: a regra ou a exceção?

O texto genial de Freud, “As Exceções” (Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Analítico), assinala a relação íntima entre a perversão e o sujeito que se vê como exceção à regra. Qual regra? Qualquer uma, mas em especial aquela que diz respeito à convivência que coloca o direito do outro em igual patamar ao seu próprio.

Ricardo III, exemplo máximo deste tipo de caráter, se via como exceção. Ele podia matar e roubar porque acreditava que a “natureza”, por tê-lo feito aleijado, já o havia punido demais. Indicação preciosa para aqueles que se sentem excessivamente punidos quando têm que cumprir uma regra: a onipotência do narcisismo (“eu sou diferente, não culpo as mesmas regras que os reles mortais”) revela a fragilidade do narcisismo (“sou muito ferido, já sofri demais, não me submeto a mais nada, se não morro…”).