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A relação de vários transtornos psíquicos com a lei merece investigação em pormenor. As categorias clássicas – histeria, perversão, psicose, neurose obsessiva… – colocam em funcionamento certas relações entre o sujeito e a lei.

Na psicose, a lei muitas vezes é impositiva e recai sobre o sujeito. Como se ela existisse apenas para o sujeito. Pensem em O Processo, de Kafka, como uma alegoria do adoecimento psicótico: a lei parece existir somente para Josef K. É o que parece querer dizer a famosa parábola do “porteiro da lei”…

Na perversão, o sujeito parece querer burlar as leis compartilhadas. Ele faz sua própria lei e muitas vezes quer aplicá-la aos outros. Penso no filme Seven como exemplo, no limite, desta relação. (A religião, neste sentido, mais próxima da perversão do que da neurose obsessiva como queria Freud). O famoso malandro brasileiro entra aqui: a lei que vale é a dele…

Mas, a relação do neurótico obsessivo com a lei é a que mais chama a atenção. O obsessivo quer cumprir a lei e quer que todos a cumpram. Não cumpri-la significa culpa. É como se a lei o preservasse de uma bagunça caótica contra a qual ele deve lutar com unhas e dentes. O filme Melhor Impossível mostra bem isto: qualquer coisa pode virar lei: andar na rua (apenas sobre as linhas!), lavar as mãos (duas vezes, com sabão, esfregando 10 vezes…). Aqui há um furor legiferante. 

Mas é absurdo dizer que todo mundo se relaciona com a lei da mesma forma o tempo todo. Num certo sentido, todos achamos em determinados momentos que é sobre nós que recai o peso das obrigações (fonte inesgotável de nossos sonhos de ganhar na megasena!); pensamos também, diversas vezes, que se todos fizessem o que pensamos poderíamos ter um futuro melhor (fonte do desejo de mudar o (a) namorado (a) de fazê-lo (a) desejar aquilo que queremos…); por último, mas não menos importante, muitas vezes gostamos de seguir as regras e desejamos que todos a sigam (quando jogamos com os amigos, quando brincamos não nos sentimos frustrados com a trapaça?).