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“Eu sou a lenda” (http://wwws.br.warnerbros.com/iamlegend/) é um filme fraco do ponto de vista cinematográfico e interessante do ponto de vista moral. Enquanto cinema, I am Legend é o que a indústria de Hollywood propõe: diversão, efeitos especiais, final feliz. Do ponto de vista moral, entretanto, é possível pensar alguma coisa a respeito. Pra começar, lembremos que a fantasia que alimenta a estória é uma das mais poderosas da nossa infância: estamos realmente sós, e pior: os outros são monstros que querem nos matar. As variações dessa fantasia, claro, são imensas, mas o enredo é basicamente o mesmo.

Muito semelhante, aliás, é a estória contada no excelente livro A Estrada, de Cormac McCarthy (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3219533&sid=18020512391221337408282525&k5=1BB8F608&uid=) . Numa atmosfera calcinada e apocalíptica, pai e filho tentam sobreviver à fome e aos ataques de hordas de canibais. O fim do mundo é aterrorizante. O livro de McCarthy capta bem as imagens de uma catástrofe sem limites e seus efeitos psíquicos.

As duas obras, o filme e o livro, se encontram num ponto: é preciso seguir em frente. Essa é, a meu ver, uma das mensagens morais das duas. São obras que, apesar de nos apresentarem um mundo acabado, não abandonam a idéia de que deve-se seguir adiante. Tentar até o último suspiro: Radicalizar o que nos disse Brecht num tempo no qual as utopias ainda eram possíveis: Neu beginnen kannst du mit dem letzten Atemzug. [Você pode começar de novo, com o último suspiro].

Do ponto de vista da psicanálise, Winnicott tem muito a nos dizer sobre essa solidão fundamental. Sobre as catástrofes ou, para usar seu conceito, o breakdown.

O filme e o livro tem muito a ver com a conclusão de Winnicott: “only out of non-existence can existence start” (In. Psychoanalytic explorations. Fear of breakdown, p. 95). O nosso problema é exatamente esse: existir a partir da não-existência.