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Foucault, no final da História da Loucura, parece fazer um elogio ao que ele chama “desrazão”. Trata-se do outro da razão. Não a loucura produzida pelos discursos médicos e psicológicos. A desrazão é aquilo que sempre escapa às tentativas incessantes do controle racional, da hierarquização, do equilíbrio, da clareza. A desrazão é o que não tem sentido, é o que atrapalha a organização, é o que não cessa de repetir das formas mais variadas e sem controle. Foucault sempre cita três autores que consiguiram dar um pouco de voz a essa desrazão: Nietzsche, Artaud e Bataille.

Pois bem, acredito que é possível traçar a origem dessa noção em Nietzsche, em especial, no livro A Origem da Tragédia. A desrazão seria talvez uma variação do que Nietzsche chama de dionisíaco. É preciso, então, traçar as semelhanças entre esses conceitos, suas diferenças, seus possíveis pontos de (des)encontro.

Mas, é com outro conceito que a noção de desrazão talvez encontre seu melhor par. Trata-se da pulsão. Freud elaborou o conceito de Trieb um pouco para diferenciá-lo do instinto. A pulsão não tem um objeto pré-fixado pela natureza. A pulsão diz de como nosso desejo é plástico, um tanto incontrolável e contingencial.

Jean Laplanche, numa obra genial, Vida e Morte em Psicanálise, traça a história do conceito no pensamento freudiano. Em resumo, Laplanche diz que a pulsão em Freud era “demoníaca”, mas foi sendo “apaziguada”, se transformando em Eros. Para contrabalançar esse apaziguamento da pulsão, Freud teve que elaborar o conceito de pulsão de morte. Para Laplanche, a pulsão de morte é o incontrolável, é o resto que nunca conseguimos digerir da sexualidade do outro, é aquilo contra o quê o ego luta para apaziguar.

Essa relação entre a desrazão e a pulsão sexual de morte (é como Laplanche vai chamar a pulsão de morte) é uma tarefa a ser feita. Assim como na história da loucura houve uma tentativa de apaziguar a loucura, transformando-a em doença mental, em diagnóstico psiquiátrico, tirando-lhe seu poder disruptivo, sua voz de contestação, também, na história da psicanálise, houve uma tentativa de apaziguar a pulsão, de torná-la “Eros”, de fazê-la talvez se reencontrar com o instinto…