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Reproduzo abaixo a coluna de Luiz Felipe Pondé, publicada na Folha de São Paulo, dia 25 de agosto de 2008, pra quem não é assinante. Pra quem é assinante UOL ou Folha, eis o link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2508200817.htm

A coluna de Pondé é daquelas que quase exigem uma resposta. Cedo à tentação – deve ser coisa de macho disputando território… Vamos por pontos.

1) Concordo com Pondé sobre o que ele diz sobre a teologia. De fato, a discussão não passa por ela. Na Academia, os argumentos teológicos não têm vez. A religião tem entrado na conversa quase sempre como objeto de análise e não como parceiro conversacional. De maneira geral, concordo também com Richard Rorty, que diz ser a religião uma “conversation stopper”. Mas esse é ponto secundário.

2) O que interessa é o argumento de Pondé sobre a tal “psicologia evolucionista”. Segundo ele, há pessoas que negam “qualquer influência biológica definitiva no comportamento humano”. Estou nesse grupo? Bem, se “definitiva” significa determinante, única, exclusiva, estou. Mas, se significa apenas dizer que a biologia é apenas mais um dos fatores que determinam o comportamento humano, então não estou. Para o bem do argumento, vamos supor que Pondé queira dizer – pelos exemplos que ele dá logo depois – a primeira alternativa: a biologia é a mais importante variável para se entender o comportamento humano.

3) Os exemplos de Pondé são eloqüentes. Ele centra a questão no ponto central: a sexualidade humana. Cem anos de psicanálise não foram suficientes para mostrar o ridículo da noção de instinto e do darwinismo dos gêneros. Mas, vamos tentar mais uma vez.

4) A psicanálise não nega que a biologia tenha influência sobre o comportamento humano. Isso é um truísmo. O que a psicanálise e as ciências humanas sustentam é que a biologia não é fator determinante. No caso dos gêneros, p.ex., o que temos? Não há macacos travestis e nem transexuais. Zebras não transam com leões. E baleias não tiram sarro com golfinhos. Mas, nós, humanos, ah, quantas coisas inventamos… Recusamos a divisão simplista dos sexos – tão cara à teologia – há muito tempo.

5) O argumento da mulher com pudor é ainda pior. Diz ele que a mulher promíscua “carrega cria pesada”. Só se for o peso da consciência da pobre macaca… Realmente, é raro que a dominação masculina seja tão explícita, mas de vez em quando… é demais. O homem, claro, pode ser promíscuo… Uma pergunta: se a questão é apenas da cria pesada ou dores do parto, durante a gravidez a mulher pode ser promíscua à vontade, certo? Ooops…

6) O problema maior desses argumentos é que eles naturalizam uma parte da vida humana que é claramente influenciada pela cultura. Eu disse influenciada. Não disse que a cultura tira o nosso corpo da jogada, que ela inventa o corpo do nada. Insisto: os corpos são parte do jogo. O que muda é como usamos os corpos, quais são os processos que os docilizam, quais são os discursos que produzem as verdades sobre eles. Cada cultura produz discursos e práticas sobre os corpos muito diferentes umas das outras. De fato, é uma escolha metodológica estar mais atento a isso do que a morfologia do cérebro das mulheres promíscuas… (geralmente, biologicistas adoram reduzir a subjetividade ao cérebro).

7) Pra terminar: a teoria de Pondé, nem de longe, explica o uso do corpo da mulher na nossa cultura. A prostituição é apenas um exemplo. Basta fazer a genealogia dessa prática para ver que as coisas não são tão simples. Como dizia o velho Gilberto Freyre: é preciso a escrava da senzala para sustentar o pudor da moça na casa grande.

8) Darwin precisa de Bourdieu e Freud. Mais diálogo, menos teologia.

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São Paulo, segunda-feira, 25 de agosto de 2008
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LUIZ FELIPE PONDÉ

Quem tem medo do macaco?


A universidade é um dos lugares menos democráticos do planeta

QUEM TEM medo de Darwin? A religião, dirão os mais apressados. E com razão, se pensarmos na obsessão do debate Deus versus Dawkins.
A verdade é que na universidade esse problema é menor e esconde uma briga muito mais feroz. A briga com a teologia é menos significativa por duas razões básicas. A primeira razão é que o darwinismo é materialista como as ciências “duras” enquanto a teologia não é, e por isso ela toma de dez a zero.
A segunda razão é que a teologia é a louca da casa (vive de favor na universidade, não é ciência nem filosofia), relegada ao lugar de vender Jesus como um bom parceiro em lutas sociais ou um bom amigo quando você está deprimido, por culpa dos próprios teólogos que barateiam Deus. Com exceção da medicina, nenhuma “ciência” deveria se comprometer com a felicidade porque ela sempre fica boba quando faz isso. Explico-me: ou a teologia rompe com a “felicidade” ou ela será sempre ridícula.
A briga séria é entre o darwinismo e as teorias que negam qualquer influência biológica definitiva no comportamento humano. Existe um pânico contra a psicologia evolucionista e o macaco no homem e a macaca na mulher. E como a universidade funciona em lobbies, com perseguições e inquisições, facilmente você pode calar alguém se ele ou ela não concordar com você. A universidade é um dos lugares menos democráticos do planeta.
Essas teorias que temem o macaco afirmam que tudo no humano é socialmente construído. Obviamente essas teorias acham que salvarão o mundo, construindo seres humanos livres de seus instintos indesejáveis. Dizem elas: dê uma boneca cor de rosa pra meninos e eles crescerão pensando que são Cinderela. Se a boneca for um bebê, o menino terá desejos de amamentar bebês. Se ensinarmos as meninas a bater nos outros, elas serão como Clint Eastwood.
Desde a caverna a humanidade está dividida em machos e fêmeas, com variações aqui e ali, e que devem ser respeitadas na sua diversidade. De repente é a “ideologia” que ensina você a “escolher” o sexo. Mentira: ninguém “escolhe” o sexo. A palavra “ideologia” deveria ser acompanhada com frases do tipo “o Ministério da Saúde adverte…”. A facilidade com a qual deixamos de falar em “sexo” e passamos a falar em “gênero” (sexualidade construída socialmente) revela a superficialidade da idéia.
Qual o problema desse delírio? Por exemplo, ele invade as escolas, e os professores um dia dirão para as crianças que não existem machos e fêmeas na espécie humana e que hábitos morais são “pura invenção”.
Professores de escolas costumam se viciar em pensamentos da moda. Essas modas pioram as já difíceis relações entre homens e mulheres depois da emancipação feminina. Por exemplo, essas modas dizem aos homens: sejam sensíveis e chorem. O problema é que a sofrida macaca na mulher, assustada ancestralmente com o parto dolorido e arriscado, tende a ser seletiva na vida sexual. De nada serve a ela, nunca serviu, machos que choram. Aí o marido chorão “dança”, apesar do “coro do gênero” dizer o contrário. Dizem “tudo bem se o homem for sustentado pela mulher”.
Imaginemos nossas mulheres ancestrais com barrigas grandes tendo que caçar para homens-macacos preguiçosos. Elas até podem, mas não gostam. Será que por isso a imagem de força, segurança e experiência entusiasmam nossas mulheres normais? Fêmeas promíscuas ficavam mais grávidas e há 100 mil anos isso aumentava o risco de morrer de parto e de carregar crias pesadas.
Sexo é fisiologicamente caro para as mulheres e barato para os homens, e isso não é ideológico. Nossas fêmeas inteligentes perceberam isso e “transmitiram essa natureza perspicaz para sua prole feminina”. Na savana africana, deveria existir uma luta pelo direito ao pudor.
O fato é que ninguém sabe onde começa e termina a relação entre natureza e cultura. Qualquer afirmação nessa área é pura especulação. Um pouco de senso comum ajudaria os profetas da “natureza zero” serem menos delirantes: seria normal imaginar que somos uma mistura de natureza e cultura, coisa que qualquer pessoa comum sabe.
O lançamento da coleção de DVDs “Evolução” (ed. Duetto) é boa chance de conhecer o darwinismo sem medo e com bela apresentação visual. Da próxima vez que você for ao zoológico, olhe no olho de um chimpanzé e veja se não parece haver ali uma alma encarcerada como a sua.