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O adolescente em Kant

09/05/10

Acabo de ler um texto muito interessante de Kant chamado Conjecturas sobre o Começo da História Humana (1786). Há muito o que comentar sobre esse texto. Desde o seu primeiro parágrafo, no qual Kant fala sobre a relação entre a conjectura e história, até sua ideia mais geral – o conflito entre o estado de natureza e a razão. Mas, pra começo de conversa, o que me espantou foi uma nota de rodapé na qual Kant fala sobre o adolescente:

A época da maioridade, isto é, tanto o impulso bem como a capacidade de gerar sua espécie, foi colocada
pela natureza na idade entre 16 e 17 anos. Nessa idade, o adolescente, que se encontra no estado de natureza, torna-se
literalmente um homem, pois nesse período ele tem a capacidade de se auto-sustentar, de procriar e de sustentar sua
mulher e seus fi lhos. A simplicidade da precisão torna isso fácil para o homem. Num estado civilizado, ao contrário,
pertencem a este último muitos meios de sustentação, seja em relação à habilidade, seja em relação a circunstâncias
externas favoráveis; dessa forma, aquela época será atrasada na sociedade civil no mínimo uma média de 10 anos.
Entretanto, a natureza não modifi cou seu ponto de maturação junto ao progresso do refi namento social, mas segue
obstinadamente sua lei, a qual ela instituiu tendo em vista a manutenção da espécie humana como espécie animal. Ora,
a partir disso surge inevitavelmente um prejuízo mútuo entre o fi m da natureza e os costumes [117]. Pois o homem
natural já é um homem formado numa idade em que o homem social (o qual, todavia, não deixa de ser um homem
natural) é apenas adolescente, ou até mesmo apenas uma criança; ele bem pode ser chamado dessa forma por que em
sua idade (no estado civil) ele nem mesmo pode sustentar-se, menos ainda sua prole, embora ele tenha igualmente o
impulso e a capacidade de gerá-la, e com isso tenha o chamado da natureza do seu lado. A natureza certamente não
colocou instintos e capacidades em uma criatura viva para que devessem ser combatidos e reprimidos. Portanto, essas
disposições mesmas não foram colocadas no homem tendo em vista o estado moral [gesitten Zustand], mas apenas a
manutenção da espécie humana enquanto espécie animal. O estado civilizado [civilisierte Zustand] entra, portanto, em
confl ito com este último [o estado moral], confl ito que poderia ser desfeito apenas com uma constituição civil perfeita
(o objetivo mais alto da cultura). No momento, esse espaço intermediário é ocupado normalmente com vícios e suas
conseqüências, ou seja, com diversas formas de miséria humana. [Cito a tradução de Joel Thiago Klein, disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/et08traducao.pdf.]

Vejam bem: trata-se de um texto do século XVIII… E o adolescente já se encontra tematizado claramente nesse estado de moratória (tese do livro de Calligaris). Kant está dizendo claramente: o sujeito do ponto de vista biológico já está pronto, mas o fazemos esperar mais um pouco… Na época dele: 10 anos. Hoje, pode-se perguntar se são suficientes para a entrada no “estado civil”…

Nesse texto, note-se bem, há uma recusa explícita do instinto como regulador da vida humana. Isso está bem claro ao longo desse texto. Kant vai colocar a razão como sendo a responsável por opor resistência a esse estado de natureza. É uma tese que vamos encontrar muitas vezes em Freud – no Futuro de uma Ilusão ela é bem explícita, mas em outros textos a razão aparece bem claramente… Mas, isso merece um comentário à parte… Releiam esse texto de Kant: há nele não só a recusa do instinto, mas também o reconhecimento do mal-estar da razão… enfim, teses muito caras à psicanálise…