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Fazia supervisão clínica com o Prof. Lúcio Marzagão quando ele me convidou para escrever um livro em co-autoria. Na época, fazia mestrado sob orientação do Prof. Paulo de Carvalho Ribeiro. A ideia inicial era fazer interpretações literárias – sob a forma de literatura – de contos consagrados; a interpretação propriamente psicanalítica; e um glossário com conceitos básicos de psicanálise. Dessa forma, Lúcio selecionou seis contos:

  • O Relógio de Ouro, de Machado de Assis.
  • A Caolha, de Júlia Lopes de Almeida.
  • O Homem que Precisava ter Ciúmes, de Menotti Del Pichia.
  • A Mulher que Passou, de Guido de Verona.
  • O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe.
  • Duas Mães, de Miguel de Unamuno.

Todos os contos estão presentes na íntegra na primeira e nessa segunda edição do livro.

O trabalho, ao longo de 1999 e 2001, rendeu boas conversas entre os autores. Lúcio fez os textos literários, Paulo as interpretações psicanalíticas que se seguem a cada um desses contos e eu pelo glossário de conceitos que serve de Apêndice ao livro.

Sobre esse pequeno dicionário, há algo curioso. Fiz várias entrevistas com Lúcio e as gravava em fica cassete. Foram mais de 30 fitas de 1h30 cada… Quis dar ao vocabulário o tom informal que Lúcio tanto preza. De toda forma, ele me pedia para “academicizar” mais o texto, o que tentei fazer também.

Quanto aos textos do Prof. Paulo César, produziam-me os mesmos intensos sentimentos despertados em suas aulas e na orientação de mestrado. Sentia que a psicanálise era ensinada por ele com o mesmo vigor radical dos textos de Freud. Há nos textos de Paulo algo da ordem de um desnudamento do inconsciente, da revelação do sexual, raramente visto nos textos de psicanálise. Desde o período no mestrado, mas também ao longo de todos esses anos nos quais venho acompanhando o trabalho do Prof. Paulo, tento seguir seus passos nessa tarefa copernicana, teorica e clinicamente.

Os textos de Lúcio são também inspiradores. Ele faz os personagens dos contos ganharem uma sobrevida… Voltam para continuar a história… Outras perspectivas se descortinam. Se os textos de Paulo causam-me a sensação de retirada dos véus, os de Lúcio me dão a impressão de sutileza… É como se um véu fosse colocado sob um ponto para o qual gostaríamos de chamar mais a atenção. Não revela, mas releva, revira. Dos preciosos anos de supervisão clínica que tive com Lúcio, essa foi uma das lições mais importantes que guardei. Pra revelar algumas coisas da ordem do inconsciente, é preciso sutileza e invenção poética. Através do Prof. Lúcio aprendi a amar o pragmatismo, essa filosofia que ensina a importância de redescrever as coisas, pensar em outros modos de dizer.

A primeira edição, de 2001, esgotou-se rapidamente. Finalmente, onze anos depois, com a facilidade da edição digital, decidimos reeditá-lo. Discutimos bastante se iríamos ou não corrigir alguma coisa no texto para além da revisão ortográfica ou mais técnica. Reli o vocabulário e senti vontade de mexer em várias coisas: ampliar, tirar, corrigir. Na verdade, isso redundaria em escrever um novo livro. É óbvio que um percurso intelectual de 11 anos produz mudanças. Seria trágico se não fosse assim. Enfim, decidimos por deixar como veio à luz o livrinho. E combinamos, claro, de escrever mais livros para dirimir o desejo de dizer novas coisas, redescrever o que dissemos, revelar de outros modos, o que tentamos nesses textos.

Na época e ainda hoje me sinto privilegiado de ter participado desse projeto. Sou imensamente grato aos dois professores pelo acolhimento nesse e em outros projetos conjuntos.

Então, fica o convite a todos para conversarmos sobre esse livro. Agora, no formato digital, espero que ele possa alçar voos mais amplos e alcançar mais leitores, mais pessoas dispostas à interlocução entre a psicanálise e a literatura.

O livro em formato digital está à venda na Amazon.

Se você quiser o livro em formato impresso, ele pode ser solicitado na Livraria da Travessa.

Em tempo: parabéns à editora, Noga Sklar, que fez um trabalho muito bacana e tem uma política de preços acessíveis. Acredito e apoio essa ideia. Que a KBR também alce alto voo!