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A Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre o custo de ter um filho hoje e outra sobre o desejo de um pai assumir sozinho seu bebê e o direito de ter mais licença paternidade por isso.

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Há duas grandes injunções ao pai contemporâneo: prover bem e estar presente afetivamente. Não basta mais o papel antigo de provedor apenas. Garantir a existência é o básico. O que a primeira matéria mostra é que isso não basta. Bem ao espírito do capitalismo, ao tratar a relação pai-filho como investimento em capital humano, fica claro que o papel do pai é investir alto no rebento em todos os níveis. Na tabela que conclui a reportagem fica claro que o investimento em lazer está presente em todas as classes. Suponho que aqui já estamos falando também da presença afetiva do pai.

(A matéria deixa bem claro que o investimento é dos pais. Não estou me esquecendo também que boa parte das famílias brasileiras tem a mulher como núcleo financeiro da casa. O que quero apontar é para um tipo ideal do pai da classe média – a classe C, da tabela da reportagem).

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A segunda reportagem mostra o caso de um pai que resolve cuidar de seu bebê sem a presença da mãe. A Justiça, acertadamente, concede a ele a licença-paternidade estendida, de mesma duração das garantidas às mães. Esse caso talvez seja também um daqueles casos “fora da curva” que servem para mostrar um fenômeno social que existe de forma mais abrandada no dia a dia. O pai é convocado a assumir funções afetivas – o cuidado cotidiano do bebê – que antes estavam restritas à mãe e às mulheres.

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Num livro escrito entre os anos de 1957 e 1964, Winnicott publica um pequeno artigo chamado “E o pai?”. Os dois primeiros parágrafos descrevem como as mães devem permitir que os pais de seus bebês se aproximem, tenham contato com seus próprios filhos. Eis o segundo parágrafo:

Eu sei que alguns pais são tímidos a respeito de seus bebês, no princípio, e sem dúvida também nunca se conseguirá que alguns se interessem por crianças; mas, de qualquer modo, as mães podem levar os maridos a ajudarem em pequenas coisas e podem organizar suas tarefas de modo que o bebê seja banhado quando o pai estiver em casa para assistir e até participar, se quiser. Como eu disse acima, tudo depende bastante daquilo que a mãe decidir. (A Criança e Seu Mundo, p. 127-8).

Reparem bem no tom que Winnicott se refere ao pai: é uma família típica inglesa cujo pai chega do trabalho e “se quiser”, “se a mãe decidir”, pode ajudar a dar banho no bebê. Um pouco mais adiante, o autor argumenta que o pai é valioso “para ajudar a mãe a sentir-se bem em seu corpo e feliz em seu espírito” (p. 129). Além disso, o pai deve dar apoio moral à mãe, “ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mãe implanta na vida da criança” (p. 129). O terceiro ponto é a presença positiva do pai que vai permitir que a criança consinta que o pai se converta numa pessoa importante em sua vida.

Winnicott termina o texto ainda insistindo no poder da mãe:

Assim, se o seu marido estiver em casa, você verificará facilmente que vale a pena esforçar-se para ajudá-lo e às crianças a conhecerem-se mutuamente. Não está em suas mãos tornar férteis as relações deles; isso depende do pai e das crianças. Mas está verdadeiramente em seu âmbito possibilitar essas relações, ou impedi-las, ou desfigurá-las. (p. 133).

Em que pese certo naturalismo na teoria winnicottiana – a mãe estar naturalmente preparada para a maternagem e o pai nem tanto – fica também evidente que “depende do pai” querer estar com seu bebê e cuidar dele. Da mesma forma, sabemos bem, Winnicott foi um dos autores da psicanálise que mais bem desconstruiu a imagem de uma mãe naturalmente pronta para ser mãe.

Interessa pensar naquilo que Winnicott chamou de capacidade de se preocupar (concern) como algo não exclusivo das mulheres ou das mães, mas uma capacidade psíquica geral de desejar cuidar de alguém de uma forma específica. Um pai suficientemente bom é também aquele capaz de se preocupar dessa forma: identificando-se com seu bebê, cuidando dele empaticamente, brincando com ele num espaço criado em conjunto com ele, um espaço transicional. Esse pai certamente não precisa da autorização de ninguém – assim como a mãe também não deve precisar – para poder amar o seu bebê dessa forma.

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Cumprir o ideal burguês contemporâneo – investir pesadamente nos filhos como capital humano – implica em trabalhar fora de casa, distante da tarefa amorosa (e não ou mal remunerada, de maneira geral) do cuidado. Saber e poder balancear essas duas tarefas é o trabalho de paternidade nos tempos contemporâneos.

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