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“sem espalhar água! Sem bagunça!”

Nesse último feriado, estava num hotel, nadando na piscina infantil com meu filho de dois anos de idade. Ao meu lado, um pai e sua filha também se divertiam. Ou nem tanto. A cena me chamou a atenção: quando a menininha, também com 2 ou 3 anos, começava sua algazarra, batendo os bracinhos e espirrando água, o pai logo intervinha: “sem espalhar água! Sem bagunça!”. Ora, pensei, se não era ali o lugar da bagunça, onde mais? Se ali ela não pudesse “molhar” o pai à vontade, quando poderia?

E por falar em amor…

A cena é ensejo para pensar no amor como modo de dominação. De forma geral, temos horror a pensar nisso. Idealizamos o amor como um tipo de afeto entre duas pessoas que irá sempre trazer coisas boas, liberdade mútua, respeito. De acordo com a visão popular, tudo que acontece entre duas pessoas, mas que não seja marcado por essa positividade idealizada, não merece o nome de amor. Ainda continuamos platônicos: o amor é o encontro entre almas gêmeas, onde tudo se encaixa, onde tudo é perfeito e sem arestas. A meu ver, é importante criticar essa imagem idealizada, pois é fácil acusar o outro de não saber amar caso não sejamos atendidos em nossos desejos. Antes de comentar esse ponto, permitam-me comentar a cena prosaica acima, interpretando um poema de Ricardo Reis:

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afectos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.[2]

O poeta certamente exagera: não ter afetos é ser livre. Exagera porque a sensação de liberdade provém de um eu que foi construído a partir da relação (amorosa) com o outro. Deve haver um eu que diga: “sou livre!”. Ora, esse eu só pode ter sido fruto de relações amorosas e políticas historicamente determinadas, portanto, fruto de afetos e para sempre tributário a eles. Libertar-se deles implicaria em livrar-se de si mesmo. A metáfora do caminhão desgovernado é válida aqui: o caminhão que desce, ladeira abaixo, sem freio e sem motorista, não é uma boa imagem para a liberdade. Melhor seria a metáfora do caminhão que pode seguir seu caminho, mesmo que obedecendo a certas regras, negociando com outras etc… A “fria liberdade dos píncaros sem nada” é tão terrível, assim me parece, como a liberdade do caminhão desgovernado.

No mesmo hotel, a mesma cena se repetia entre diversos filhos e pais – eu incluído: não toque nisso, não faça aquilo, volte aqui, agora não, vamos tomar banho, vamos dormir… A criança precisa de limite. Liberdade, do ponto de vista da criança, não pode ser confundido com um tudo-fazer ou um tudo-poder. Ao contrário: liberdade parece ter a ver com fazer a partir do olhar e da palavra do outro, atravessado pelo sentido que o outro dá à ação da criança. Ao mesmo tempo em que essa palavra qualifica a ação da criança, também pode oprimi-la.

O amor também oprime

O ponto do poema que me interessa é essa idéia fundamental a desenvolver: o amor também nos limita, também nos oprime. Talvez o pai da cena narrada quisesse ensinar à filha os bons modos de uma menina. Que isso tenha me parecido um excesso – freio demais no caminhão – depende exclusivamente do que podemos discutir sobre como deve se comportar uma criança dentro de uma piscina e, mais genericamente, sobre como devem se comportar as crianças, a quê devem ser estimuladas, quando e de que maneira. Não importam quais regras desejemos impor: essas regras sempre existirão, por mais amorosas que sejam, por mais suaves que possam ser enunciadas. E nesse sentido o amor oprime. Tanto quanto o ódio ou a inveja, como salienta o eu-lírico. Já me vali, em outro texto[3], de uma passagem brilhante de Winnicott que explica o efeito positivo dessa dominação no amor:

A criança cujo lar não conseguiu dar-lhe um sentimento de segurança procura fora de casa as quatro paredes que lhe faltaram; tem ainda esperança e busca nos avós, tios e tias, amigos da família e na escola o que lhe falta. Procura uma estabilidade externa, sem a qual enlouquecerá. Fornecida em tempo adequado, essa estabilidade poderá consolidar-se na criança como os ossos no seu corpo, de modo que, gradativamente, no decorrer dos primeiros meses e anos de vida, passará da dependência e da necessidade de ser dirigida para a independência. (Winnicott, 1979, p. 257, grifos meus)[4]

No artigo citado, ainda comentei: pode-se notar que Winnicott subverte a idéia de que a criança sem limites, sem um sentimento de segurança, está entregue ao prazer e se sente absolutamente livre. Ao contrário, ela precisa de limites para se sentir livre e para não enlouquecer. Caso a criança não consiga fazer desse controle algo interno – é curiosa a metáfora dos ossos utilizada por Winnicott – ela tentará fazer com que esse controle seja externo: “a criança anti-social, doente, sem oportunidade para criar um bom “ambiente interno”, necessita absolutamente de um controle de fora para ser feliz e estar apta a brincar ou trabalhar” (ibid., p. 259).

Água pra todo lado

Pensar sobre essa cena e todas as outras de pedagogia amorosa entre um pai e seus filhos nos ajuda a compreender um dilema filosófico importante. Como indivíduos modernos, atravessados pela moral burguesa e por valores liberais, temos desconfiado cada vez mais de qualquer tipo de tutela, qualquer tipo de outro que se arrogue saber o nosso bem. O velho bordão “faço isso por seu bem” nunca foi tão atacado quanto agora, num tempo no qual tememos privar a criança de sua autonomia.

O dilema está no fato de que todos os nossos valores são transmitidos, mesmo esse ligado à moral burguesa, defensora da liberdade individual. Também faz parte dessa moral a ideia de que só somos livres numa sociedade em que certos valores são compartilhados e respeitados. É isso o que a cena me causou: o pai parecia bem intencionado ao educar a filha, mas me pareceu excessivo. Não há solução fácil para esse tipo de pedagogia. As fronteiras entre a dominação e o ensino são sempre movediças. A solução está – ainda obedecendo à tal moral burguesa – em manter espaços públicos de discussão sobre como educar, como reavaliar limites.
Os frios píncaros do desafeto e a suposta liberdade ali encontrada não valem o sorriso da menininha que, mesmo sobre as críticas do pai, insistia em jogar água pra todo lado. Não estamos longe dos dilemas morais que irão se desenrolar a partir daqui: a distinção entre a demanda que endereçamos ao outro e o desejo que temos de fazê-lo se submeter ao nosso desejo. Não me parece possível retirar a carga sádica da crença “se você não faz isso por mim é porque você não me ama”… Ora, demandar algo do outro – que pare de espirrar água, que ele pare com aquela mania que nos incomoda, que ele pare de fazer o que nos obriga a renunciar a ele etc… – implica, sempre, em aceitar que o outro pode recusar. Entender que isso não é desamor, mas prática conjunta de liberdade é o que podemos chamar exercício ético dos contratos amorosos.

[1]Psicólogo, Mestre em Teoria Psicanalítica e Doutor em Estudos Literários (UFMG). Professor Adjunto I de Psicanálise e Relações Objetais, no Departamento de Psicologia, da UFMG. www.fabiobelo.com.br
[2] Poema datado de 1-11-1930. In Pessoa, Fernando. Odes de Ricardo Reis. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994), p. 126.
[3]BELO, F. R. R. . Os efeitos da violência na constituição do sujeito psíquico: uma análise de Cidade de Deus. Psyche (São Paulo), São Paulo, v. VIII, n.14, p. 77-94, 2004.
[4]Winnicott, D.W. Aspectos da delinqüência juvenil. In. A criança e seu mundo. Trad. Álvaro Cabral. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, pp. 256-261.

Esse texto está publicado no livro:

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