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Pensem na cena: um bebê é lançado para fora do carro, durante um terrível acidente. Ele passa rente a uma árvore, e vai cair justamente num canteiro gramado ao lado da movimentada avenida na qual estava o carro. O bebê sobrevive sem nenhum arranhão.

Agora nessa: João, de 28 anos, varria a calçada de sua casa. Um pneu de um grande caminhão se desprende da auto-estrada que passa a 5km de sua casa. O pneu ganha grande velocidade e acerta em cheio a cabeça de João, matando-o instantaneamente.

As duas cenas levam muitos a conclusões diametralmente opostas:

(a) O puro acaso: se o carro tivesse a 1km/h mais lento ou mais rápido… os resultados poderiam ter sido outros; se João tivesse saído de casa 30 segundos mais tarde, o pneu não o acertaria…

(b) O sentido absoluto: deus existe ou existe uma “ordem cósmica” que organiza completamente os eventos do mundo humano.

Para a psicanálise, na vida psíquica nada é por acaso… mas, no mundo, a ideia é mesmo se alinhar com a ciência: não há uma ordem plena que justifique fatos morais ou fatos históricos. A hora da morte, nos exemplos citados, é, a princípio, o mais contingente dos eventos humanos. E é justamente aí, no máximo da contingência, que fazemos intervir algo do pleno sentido. Isso pode ser interpretado como uma defesa contra a angústia radical advinda desse tipo de evento de absoluto non-sense.

Quando a morte sai do campo puramente eventual – um vírus, uma bala perdida… – e entra no campo moral, o que era contingente entra no jogo-de-poder justiça / injustiça. No campo do direito, ao que parece, as noções de dolo e culpa giram em torno desse ponto: quando é contingente? Quando há responsabilidade?

Num belo poema chamado “O Louva-Deus”, Ferreira Gullar nos fala de um louva-deus que “se faz de vegetal / de talo seco” e que “sabe” que por ali “deliciosas voam libélulas / besouros todos / comestíveis / que (sem vê-lo) dele / se aproximarão para morrer”.

Quero começar essa série de pequenos textos sobre a contingência e a injustiça pensando nessa cena do poema de Gullar. Primeiro ponto, então, da diferença entre a contingência e a injustiça: essa diferença parece estar suprimida, radicalmente, no campo da natureza. É por um esforço antropológico, por uma humanização, que o natural pode vir a ter uma coloração moral. Afinal, sabemos o quão desastroso seria “proteger” as libélulas de serem devoradas por um louva-deus. A contingência desse mortífero encontro nada tem de injustiça.

Conclui Gullar o seu poema: “ou não / ou sim / ou tanto faz // pois que / na natureza / não há crimes nem culpas.”

(Cf. Gullar, Ferreira. em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010: p. 100)

Em tempo: a domesticação dos animais – as aves (pensem nos galos de briga, nas assas cortadas dos papagaios), os cães, os gatos, os bois – torna bem mais complexa essa ausência de contingência. Não é contingente o confinamento de animais… Observem, porém: é apenas na humanização desse campo, a sua colonização pelo pulsional, que o torna moral, que o torna digno do jogo-de-linguagem “justo – injusto”.

Há dois contos de Guimarães Rosa muito bons.

“Sinhá Secada” conta a história de um trabalho de luto.

“Quadrinho de Estória” conta a história de um sujeito, dentro da prisão, que amarga a culpa de um homicídio.

Leiam aqui.

Gosto muito de um filme chamado Virgina. Infelizmente, não o encontro para comprar ou alugar aqui em BH. Felizmente, há um torrent com legendas em português:

Torrent E aqui um link alternativo.

Escrevi um pequeno texto sobre o filme. Clique aqui.

Há um capítulo inacabado da segunda parte de Economia e Sociedade, de Max Weber, chamado “O mercado”. É um texto curtíssimo, mas que merece ser lido com atenção.

O ponto que quero destacar é uma tensão. Primeiro, Weber diz que o mercado, devido a sua racionalidade pura, cujo objetivo precípuo é a troca, é estranho, já na raiz, a toda confraternização. Ou seja, o o mercado considera a coisa e não a pessoa. Todavia, no final do texto, Weber lembra que a troca é a forma especificamente pacífica de obter poder econômico. Em outras palavras, o exercício do mercado constitui a comunidade política e evita outras formas (violentas) de apropriação de bens.

À primeira vista, a tensão se traduziria assim: o mercado é impessoal e “impessoalizante”, mas, como desejam muitos liberais, ele é também a melhor forma de mantermos a paz entre nós – mesmo que esse “nós” seja cada vez mais reduzido a “parceiros comerciais”.

A tensão, acredito, se desfaz se lembrarmos que as condições dos participantes no jogo do mercado não são as mesmas. As condições sociais de empoderamento – inclusive do poder de participar do “livre” jogo das trocas – não são iguais. Longe disso: essas condições são permanentemente articuladas pelos mais diversos jogos de poder: ora altamente favoráveis, ora terrivelmente estáticas.

Enfim, uma leitura instigante: clique aqui para acessar o texto.

Quando a Lei é Surda: Um Caso Recente na História da Relação entre Psicologia e Direito
Liliane Camargos
Tribunal de Justiça – MG
Fábio Belo
Faculdade de Direito Milton Campos

RESUMO – Este trabalho apresenta uma análise do caso de José, um surdo-mudo que foi tomado como louco e, por ter sido acusado de tentativa de homicídio, foi condenado ao internamento em hospital psiquiátrico. O caso é um exemplo do que Michel Foucault chama de ubuesco e ilustra as relações entre a Psicologia e o Direito, em especial os fundamentos políticos da psicologia forense.

Palavras-chave: surdez; ubuesco; Foucault; Direito; subjetividade.

Leia o artigo completo aqui:

http://www.revistaptp.unb.br/index.php/ptp/article/view/400/65

Pessoal, no arquivo abaixo (60mb!!!) há o livro esgotadíssimo do Laplanche, Teoria da Sedução Generalizada e outros ensaios, além dos dois livros da Silvia Bleichmar.

No mesmo link: textos diversos sobre Laplanche e a problemática sobre a transferência, A Tina.

Clique aqui.

Boa leitura!

Art is the sole alternative to luck; and divorce from each other of the meaning and value of instrumentalities and ends is the essence of luck. The esoteric character of culture and the supernatural quality of religion are both expressions of the divorce. (Dewey, Experience and NatureLondon: George Allen & Unwin, 1929: 372)
A arte é a única alternativa à sorte. A filosofia da arte de Dewey é um elogio à arte enquanto prática. Trata-se de tomar a arte como paradigma do fazer humano. Arte é a experiência dotada de sentido: nosso esforço em evitar o divórcio entre a instrumentalidade e os fins, isto é, um esforço para tornar significativa a ação humana.
A arte como paradigma é também um passo na mesma vereda aberta por Dewey, ao articular estética e política. Acreditar na democracia como forma de vida é crer na possibilidade da construção dialógica dos laços sociais. Aqui também nos afastamos da sorte: acolhemos o conflito e a tensão inerentes ao diálogo como parte do processo de mudança – de qualquer mudança.

O interessante conto “Cryptology”, de Leonard Michaels, conta um bizarro episódio na vida de Nachman. Ele vai até Nova York – saindo da Califórnia – a convite de uma empresa, a Delphic Corporation. Trata-se de uma possível proposta de emprego que Nachman de antemão já sabe que vai recusar. Na verdade, aceitara ir a NY porque aproveitaria para visitar o pai a quem não via há muitos anos.

Pois bem, na hora marcada com o representante da empresa, ninguém aparece. Posteriormente temos uma explicação: ninguém, em NY, dá a mínima para ninguém. Eles devem ter arrumado um outro empregado e simplesmente esqueceram dele.

Quem dá essa explicação é uma outra personagem, Helen Ferris, com quem ele encontra na rua. Não é bem um encontro casual: ela o segue por cinco quarteirões e só então se apresenta. É curioso que Nachman não reconhece Helen. E mesmo depois de alguma conversa, ele ainda não se lembra de onde ele a conhecia. Mas, tamanha é a intimidade que Helen parecia ter com ele que ela lhe ofereceu as chaves de seu apartamento e o convidou para jantar com seu marido.

Chegando nesse apartamento, Nachman percebe que não está sozinho. Os dois estão no banheiro, tomando banho, e falando sobre ele.

Bom, o resto tem que ler… o conto é bom e o final bem interessante.

Meu comentário é breve: achei uma excelente alegoria da vida burocrática. O sujeito é um matemático, representa bem esse sujeito moderno “racional”. Sem vínculos aparentes ou estáveis – o pai quase nunca visitado. (Durante o conto ele não o visita, talvez nem o faça, pois o pai não atendia ao telefone, pois era muito “esquecido”).

Essa situação cotidiana das grandes metrópoles – encontrar alguém e não se lembrar exatamente quem é a pessoa ou de onde a conhecemos – marca bem a dimensão do anonimato, da fluidez do laço social hoje em dia. O desfecho do conto mostra bem que até a tentativa de reencontro é um tanto problemática.

Conviver com o outro nos obriga, quase sempre, a ser outro, a se tornar outro – e quase nunca estamos dispostos a abandonar a segurança de nossa identidade, a certeza do que somos, gostamos, pensamos. Uma forma de lidar com isso é simplesmente manter o laço com os outros o mais superficial possível, o mais breve, ou para usar uma feliz expressão de Bauman, líquido. Nachman, em alemão, é quase nach man, isto é, em direção a alguém. Mas, no caso, de Nachman, esse movimento em direção ao outro parece interrompido permanentemente.

Uma entrevista de emprego que sei que vou recusar… um encontro com um pai “esquecido” que talvez não aconteça… um encontro casual com uma mulher que eu já não me lembro quem é… e que, na iminência de redescobrir, vejo que para reconhecê-la devo reconhecer-me… e é isso, no fundo, que quero evitar.

O conto pode ser lido aqui: http://www.newyorker.com/archive/2003/05/26/030526fi_fiction?currentPage=1

E pode ser ouvido aqui: http://www.newyorker.com/online/2010/06/07/100607on_audio_galchen

Os resumos de todas as aulas do curso Segurança, Território, População, de Michel Foucault, feito por meus alunos, do curso de Sociologia do Trabalho, da Pós-Graduação em Direito do Trabalho, encontra-se disponível para download:

Download do arquivo

São resumos informais, feitos para uso em sala de aula. Mas, podem servir aos possíveis interessados em “passar os olhos” nesse curso de Foucault, no qual ele traça a genealogia do Estado. Falamos um pouco do poder pastoral, da contra-conduta, da razão de Estado, dos fisiocratas, da Polícia, dentre outros temas.