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1. História dos conceitos

O famoso primeiro parágrafo de “Pulsões e Destino da Pulsão”, de Freud (2004 [1915]), pode ser lido como uma importante advertência com relação à transitoriedade dos conceitos de uma ciência. O que dá a qualquer conceito esse caráter transitório é a insuperável distância entre nossas definições e o mundo empírico. Essas definições iniciais são sempre convenções, isto é, sempre fruto de escolhas arbitrárias e de nosso aparato sensitivo. “Confinar conceitos em definições” é o último passo de um longo percurso arbitrário. Mas, esse suposto último passo – um mínimo de certeza – logo se mostra um mal passo e exige a retomada do caminho investigativo. Cito o parágrafo na íntegra:

Ouvimos muitas vezes a opinião de que uma ciência deve se edificar sobre concei­tos básicos claros e precisamente definidos, mas, na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições. O verdadeiro início da ati­vidade científica consiste muito mais na descrição de fenômenos que são em seguida agrupados, ordenados e correlacionados entre si. Além disso, é inevitável que, já ao descrever o material, apliquemos sobre ele algumas ideias abstratas obti­das não só a partir das novas experiências, mas também oriundas de outras fontes. Tais ideias iniciais – os futuros conceitos básicos da ciência – se tornam ainda mais indispensáveis quando mais tarde se trabalha sobre os dados observados. No princípio, as idéias devem conter certo grau de indefinição, e ainda não é possível pensar em uma delimitação clara de seu conteúdo. Enquanto elas permanecem nesse estado, podemos concordar sobre seu significado remetendo-nos repetida­mente ao material experiencial a partir do qual elas aparentemente foram deriva­das; contudo, na realidade, esse material já estava subordinado a elas. Em rigor, essas idéias iniciais possuem o caráter de convenções. Entretanto, é preciso que não tenham sido escolhidas arbitrariamente, e sim determinadas pelas relações significativas que mantêm com o material empírico. É comum que imaginemos poder intuir tais relações antes mesmo de podermos caracterizá-las e demons­trá-las, mas só depois de termos investigado mais a fundo determinado campo de fenômenos é que poderemos formular com mais precisão seus conceitos básicos e modificá-los progressivamente, até que se tornem amplamente utilizáveis e, por­tanto, livres de contradição. É apenas então que talvez tenha chegado a hora de confinar os conceitos em definições. Entretanto, o progresso do conhecimento não suporta que tais definições sejam rígidas, e como ilustra de modo admirável o exemplo da física, mesmo os “conceitos básicos” que já foram fixados em definições também sofrem uma constante modificação de conteúdo. [1]

Os conceitos de uma ciência têm, portanto, uma história. E o que essa história mostra é que a origem desses conceitos é contingencial, fruto da frágil articulação entre o experimento e a linguagem. Um campo não recobre o outro. Inúmeras metáforas na filosofia da ciência já foram usadas para tornar essa impotência da ciência mais visível. Cito duas: (a) conceitos são como mapas: não recobrem todo território, se assim fosse, seriam inúteis; (b) conceitos são como andaimes: servem apenas de apoio através do qual apenas uma parte do real pode ser acessado.

É importante observar, en passant, que Freud não é um realista: ele diz claramente que “os fatos observados” já estão subordinados às ideias que futuramente se tornarão os “conceitos básicos” de uma ciência. Ou seja, não há um fato puro ao qual poderíamos recorrer para garantir a veracidade dos nossos conceitos. Na verdade, nossos conceitos são forjados para fazer aparecer essa realidade que julgamos “encontrar”.

2. Fascismo do pensamento

Não deixa de ser curioso que a história de muitas ciências recalque esse traço de sua “personalidade”, por assim dizer. Digo recalque porque acredito que o processo de recusa do caráter transitório de nossos conceitos é mais do que mera recusa ou repressão. É um processo de defesa bem articulado que funciona como o recalque, inclusive ensejando o retorno do recalcado em formas sintomáticas diversas.

Há muitos “sintomas” oriundos desse recalcamento. Cito alguns: (1) apenas um autor é aceito como detentor da verdade sobre certo saber; (2) a história da disciplina é transformada num tipo de hagiografia bem comportada e não numa pesquisa sobre as condições de possibilidade dessa disciplina; (3) a disciplina tende a recusar traduzir seus termos de forma interdisciplinar e tende a se fechar esotericamente, sendo acessível apenas aos “iniciados”; (4) qualquer crítica aos conceitos é entendida como “resistência” ou inapetência (ignorância) e é exigido do crítico uma imediata resposta “para colocar algo no lugar” do que é criticado.

Há vários nomes para essa doença do pensamento. Podemos chamá-la dogmatismo, triunfo da religião, proselitismo. Mas, o nome que prefiro é fascismo do pensamento. O batismo é de Michel Foucault, quando escreve o prefácio ao Anti-Édipo, de Deleuze e Gattari. O autor toma o fascismo como inimigo maior, adversário estratégico. O fascismo que há em nós, ele lembra, “o fascismo que nos faz amar o poder, desejar essa coisas mesma que nos domina e nos explora”. Ele levanta questões fundamentais:

Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (e sobretudo quando) cremos ser um militante revolucionário? Como livrar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como desalojar o fascismo que está incrustado no nosso comportamento?[2]

Dentre os conselhos que o autor nos dá para liberar o nosso pensamento da doença fascista, destaco um:

Liberte-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental tem por tanto tempo sacralizado como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, o fluxo às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo não é sedentátio, mas nômade.[3]

O pensamento não-fascista não é um pensamento relativista. Ao contrário do que os fascistas acreditam, as críticas da desconstrução não são terroristas, isto é, atos de sabotagem que visam a implantação de outro fascismo. É importante ler essa sugestão de Foucault como aquilo que ela é: um convite. Convite à diferença e ao nomadismo do pensamento.

3. História como antídoto

A história de uma disciplina pensada como o exame sistemático das condições de possibilidade dessa disciplina é o melhor antídoto contra o fascismo do pensamento. Reveladas as condições de possibilidade, encontramos a contingência dos conceitos, sua origem móvel e múltipla. Além disso, aponta-se para o devir-diferente de todo conceito, de todo pensamento.

O que é particularmente assombroso, na minha opinião, é que a Psicanálise sofra dessa doença. Ela que parece uma disciplina profundamente interessada na historicidade. Ela que sempre denuncia a ilusão da religião e da certeza. Ela que sempre aponta para o “umbigo”, o limite da interpretação.

21/06/2009


[1] Freud, Sigmund. Pulsões e destinos da pulsão. In _____. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Trad. Elsa Susemihl, Helga Araújo, M. Rita Salzano e Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2004 [1915]: 145. Negrito meu.

[2] Foucault, Michel. Préface. In ____. Dits et écrits I. Paris: Quarto/Gallimard, 2001 [1977]: 133-6.

[3] Ibid.

Numa entrevista a F. Ewald, Michel Foucault lembra o que pode ser a ética de um intelectual: tornar-se capaz permanentemente de se desprender de si mesmo (isso que é o contrário da atitude da conversão).

Foucault localiza na Universidade o espaço adequado para essa ética. “Ser ao mesmo tempo um universitário e um intelectual, é tentar fazer jogar um tipo de saber e de análise que é ensinada e recebida na universidade de forma a modificar não somente o pensamento dos outros, mas também o seu próprio. Esse trabalho de modificação de seu próprio pensamento e aquele dos outros me parece ser a razão de ser dos intelectuais.”

Ewald compara, então, essa atitude de Foucault àquela de Sartre que passou sua vida desenvolvendo uma intuição fundamental. E pergunta se essa vontade de se “desprender de si mesmo” é uma forma de se singularizar.

É muito interessante a resposta de Foucault:

“Eu não diria que há algo de singular. Mas, o que sustento, é que essa mudança não toma a forma nem de uma iluminação súbita que “abre os olhos” nem de uma permeabilidade a todos os movimentos da conjuntura; eu queria que isso fosse uma elaboração de si por si [soi par soi], uma transformação estudiosa, uma modificação lenta e árdua pelo cuidado constante da verdade.”

O que acho interessante nessa resposta é o seguinte: Foucault nega, mas não se detém em explicar por que essa ética do intelectual não levaria, necessariamente, a uma singularidade. Acho que deveríamos explorar isso de alguma forma, pois muito é “incensado” em torno da singularidade hoje em dia.

É curioso também como Foucault localiza na Universidade o espaço para essa ética, não? Se tomarmos essa ética como ideal, é preciso estudar quais são as forças que parecem lutar a favor da conversão nesses espaços onde deveria reinar o desprendimento.

Finalmente, essa passagem me faz lembrar de algo que Bion fala acerca da importância do pensamento como atividade libidinal. O pensar como um jogo. O desejo de mudar o próprio pensamento e o pensamento dos outros: seria isso uma forma de tornar mais aprazível o que Bion chamava de transformação dos elementos beta em elementos alfa? O que antes não podia ser pensado… agora, devidamente transformado, pode.  Então, eu quero dizer que o intelectual pode agir como uma mãe em sua capacidade de rêverie? Aqui é preciso muito cuidado: na mesma entrevista, Foucault lembra que o papel de um intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer (p. 1495). O insight que quero desenvolver aqui é outro: o intelectual como lugar de rêverie é simplesmente manter o movimento psíquico do pensamento possível, transformando elementos-beta em elementos-alfa e deixando-os mais livres.

Obs: todas as citações desse post estão na p. 1494, do II vol., da edição nova dos Dits et Écrits. O texto, pra quem tem outras edições, é o de n. 350 e se chama “La souci de la vérité”.

 

I Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura

I Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura

Pessoal, estou organizando o I Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura. Nessa empreitada, me ajudam: Liliane Camargos, Pedro Castilho e Bernardo Maranhão.

O congresso ocorre na Faculdade de Direito Milton Campos, nos dias 15 e 16 de maio.

Estamos recebendo artigos para apresentação no congresso e subsequente publicação nos Anais (com ISSN, para o devido lançamento no Lattes).

Participem! Divulguem, por favor.

Mais informações e inscrições:

www.conpdl.com.br

Na parte (7), do capítulo 4, de Totem e Tabu, Freud lembra que Orfeu pagou por um crime que não cometeu: a isso ele chama culpa trágica. Ele tenta ver nisso algo sempre presente na nossa relação com a lei. Nesse sentido, ele, mais uma vez, pede auxílio à literatura e cita Goethe: “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu” (Fausto, Parte I, Cena I). Sobre essa frase, ele quer lembrar uma questão fundamental para a psicologia social que a psicanálise toma para si: como se estabelece “a continuidade exigida pela vida mental de sucessivas gerações”.

E qual é a resposta de Freud? Que todos possuímos um apparatus que nos capacita a interpretar as reações de outras pessoas, que nos capacita a compreender inconscientemente nossos costumes, nossas cerimônias e nossos dogmas. Em outras palavras: é a partir do inconsciente que compreendemos o que é a lei. É preciso fazer trabalhar a frase de Goethe em muitos sentidos ainda. Como conquistar isso que herdamos de forma inconsciente? O que fazer da lei que herdamos à nossa revelia? Como torná-lo um pouco mais “nossa”?

Este é apenas um exemplo de tema a ser desenvolvido no nosso congresso. Participe: www.conpdl.com.br

The Pattern

BY ROBERT CREELEY

As soon as
I speak, I
speaks. It
wants to
be free but
impassive lies
in the direction
of its
words. Let
x equal x, x
also
equals x. I
speak to
hear myself
speak? I
had not thought
that some-
thing had such
undone. It
was an idea
of mine.

Há uma obra de Giacometti (1948), no MOMA, chamada City Square:

Giacometti (1948)

Giacometti (1948)

Uma imagem melhor no próprio site do MOMA: http://www.moma.org/collection/object.php?object_id=81373

Sempre penso nessa “praça de cidade” quando leio Blanchot:

“(…) Na palavra, é o fora [le dehors] que fala dando lugar à palavra e permitindo a ela falar.

- De forma que os interlocutores só falariam por causa de sua estrangereidade preliminar e para dar expressão a essa estrangereidade?

- Sim, fundamentalmente. Há linguagem, porque não há nada de “comum” entre aqueles que se exprimem, separação que é suposta – não superada, mas confirmada – em toda palavra verdadeira.” (Blanchot, Maurice. L’Entretien Infini. Paris: Gallimard, 1969: 79).

Como compreender essa ideia de Blanchot? Não diz o pragmatismo que falamos justamente porque compartilhamos significados comuns? Não falamos justamente porque supomos que aquilo que dizemos o outro o compreende minimamente? Então, que história é essa de uma separação confirmada pela linguagem?

O mito de Babel talvez lance alguma luz aqui: o desejo de alcançar o divino, o absoluto, resultou numa confusão insuperável de línguas. Não é possível chegar ao acordo absoluto, à compreensão total do Todo. Sempre há outra perspectiva possível. Há sempre novas descrições possíveis.

Um outro ponto a se lembrar é que a aprendizagem da linguagem se dá de forma afetiva e não digital. As palavras, a psicanálise nos ensina, são muito mais que códigos. A poesia é prova de que a palavra é som e afeto muito antes de significar qualquer coisa.

Finalmente, compreendo Blanchot como desejando apontar para a radical singularidade de cada um (o pleonasmo é necessário aqui). Isso para mostrar também que, apesar de compartilharmos muitas coisas – afinal, aqueles caras da praça de Giacometti andam numa praça construída por todos… – não compartilhamos tudo. Há sempre o “fora”, aquilo que não pode ser pensado, que não pode ser dito…

Penso no desejo de apontar para a diferença entre nós muito mais do que para o que compartilhamos como um método. Derrida, Foucault, Blanchot, Freud, Bataille: cada um a sua maneira valeu-se dessa mesma tática discursiva. Apontar para a diferença, para a errância, para o inconsciente… como tática iconoclasta, crítica às imagens fixas que queremos fazer de nós mesmos. Esse é sempre o primeiro passo para qualquer mudança (pessoal e política) possível.

Mas, quais são os riscos políticos dessa forma de descrever os humanos? Por um lado, prosseguimos com algo importante conquistado na modernidade: o respeito pelas diferenças. Por outro, corremos o risco de reificar essa diferença tornando impossível ações sociais ou “sujeitos coletivos”: observem que na escultura de Giacometti nenhum dos transeuntes olha um para o outro.

Pensar de novo: a diferença, no limite, é impossibilidade de encontro. Mas, só a diferença-porvir de todo encontro é política de fato.


Há uma fotografia, no MOMA, de Irving Penn, datada de 1949, e que se chama Girl in Bed on the Telephone. Eis a foto:

Girl in Bed on the Telephone

A foto é de uma beleza impressionante. Em primeiro lugar, pela captura de uma cena íntima, mais que prosaica. Em segundo, pela composição plástica da cena: as voltas do lençol, a renda da blusa da garota, o amarrotado do travesseiro.

A Psicanálise nos ensina que amamos a partir da fantasia. Nossos objetos de amor são, por assim dizer, substitutos do que nunca pode ser substituído. Essas marcas originárias são a fonte inesgotável de nossas fantasias de amor. É sempre a essas relações pretéritas-presentes que retornamos. Freud dizia que o encontro com o objeto de amor é, de fato, um reencontro. Ao contrário de uma velha teoria popular do amor que diz que sempre estamos procurando um objeto perdido, Freud está dizendo que reencontramos, de fato, o objeto das origens.

Voltemos à fotografia de Penn: pensem na singela diferença entre a marca das dobras do lençol e as marcas um tanto informes, um tanto “em ondas”, fazendo aparecer voltas, espaços ocultos, sombras. Percebam que a perna “em v” da garota acaba por tensionar o lençol. Essa linha diagonal desequilibra a leve curva que parece fazer o corpo da moça. Vejam ainda o fio do telefone que parece passar por debaixo do pescoço da garota. Um fio que não faz reta, ao contrário: que se deixa moldar pelas voltas do travesseiro ocupado apenas na extremidade. Um fio cuja origem também não temos acesso: a tomada imaginada é prosaico demais. Há uma força metafórica muito importante aqui nesse fio que vai para “fora da cena”, para um outro lugar…

Seus olhos fechados transformam o travesseiro no corpo do outro imaginado. Ele já esteve ali? Seria mesmo ele? Não poderia ser ela? De repente, o expectador começa a fantasiar também sobre essa cena. Ocupa-se o lugar do travesseiro ou o lugar dela: quem abraçaríamos assim? Por quem nos deixaríamos abraçar assim? Ou ainda: por quem repetimos essa cena solitária mas de profunda comunicação com o outro?

O telefone traz a voz do outro. Mais: o tom, o ruído da respiração, uma presença apenas parcial. Mas, isso basta para trazer o outro para perto, para dentro. Basta um pedaço do outro. Winnicott chamava esse tipo de pedaço que nos faz reencontrar uma relação intensa com o outro de objeto transicional. Toda essa cena me parece ter um forte caráter transicional: o travesseiro não de fato o outro, a voz mediada também não é o outro, a imagem pensada de olhos fechados também não é… Mas como recusar que o outro ali está nessas dobras, nessas linhas, nessas curvas?

O objeto transicional é muito mais do que um simples substituto para um objeto amado (na nossa cultura, quase sempre, a mãe). É um objeto que marca uma transição entre o eu e o outro, é o meio, é o entre-lugar, é o outro em mim, é o cheiro e o gosto do outro impregnado no meu corpo. O bico, a fralda, o ursinho, o travesseirinho: são objetos profundamente investidos porque marcam uma posição do sujeito diante desse outro. O objeto transicional garante, em certa medida, a posição do “bebê da mamãe” ou, em termos técnicos, de sermos objeto de desejo do outro. A garota que abraça o travesseiro abraça também um lugar que ela ocupa dentro de uma relação.

O aparente auto-erotismo da cena, na verdade, é totalmente colonizado pela presença do outro. Como disse: ela ocupa apenas a extremidade do travesseiro… ela quase cai no “lugar do outro”… Talvez, ela já esteja adormecida, sonhando. Talvez, a relação esteja bem no início. Talvez, seja esta seja uma cena de luto, do fim de uma relação… Mais uma vez o expectador fica sem saber, em suspense permanente, sobre o sentido da cena. Na minha opinião, isso é o fundamental: o suspense desse sentido que toda relação amorosa traz – e também a suspensão de um sentido único que toda boa obra de arte, como essa fotografia, traz. Por mais evidente e prosaica que ela pareça ser no início, num primeiro olhar… Não sabemos ao certo o que reencontramos, mas seja lá o que for, isso, quando aparece, sempre produz um efeito. E é, justamente, sobre esse efeito que uma análise versa.


1) A Psicanálise é também um método terapêutico. Não há dúvida de que, ao transformar parte do que é inconsciente em consciente, ela transforma as pessoas. Se considerarmos a neurose como um estilo de vida, então é possível pensar no desenvolvimento de outro estilo, outra forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

2) Mas, é preciso estar atento ao desejo de “ser outro”, tão comum nas neuroses. Nossos romances familiares estão repletos de narcisismo. Uma família melhor, um pai mais amigo, uma mãe mais compreensiva: esses desejos implicam também no suposto ego que daí adviria. Isso está geralmente implícito: “se eu tivesse tido um pai mais compreensivo… hoje eu seria…”. Parte fundamental de uma análise é exatamente esclarecer os limites dessa “mudança” desejada, desse ser outro que aparece como ideal imaginário.

3) Na Conferência XXVII, sobre a transferência, Freud diz alguma coisa que merece muitíssima atenção: “Der geheilte Nervöse ist wirklich ein anderer Mensch geworden, im Grunde ist er aber natürlich derselbe geblieben, d. h. er ist so geworden, wie er bestenfalls unter den günstigsten Bedingungen hätte werden können.” (GW, XI, 452). Traduzindo: “o neurótico curado se transformou realmente em um outro homem, mas, no fundo, naturalmente, ele permaneceu ele mesmo, isto é, ele assim se tornou o que poderia ter se tornado no melhor dos casos, sob as melhores condições.” Freud conclui: “Aber das ist sehr viel.” Ou seja: “Mas, isso é muita coisa.” O que, qualquer um que já se submeteu a uma análise, há de concordar…

3.1) Mas, o que Freud quer dizer com isso? Como assim, o sujeito curado é aquele que se transformou… naquilo que ele seria “no melhor dos casos”… então, voltamos ao romance familiar? Mas, então, a Psicanálise usaria o método per via di levare, isto é, aquele método que vai “retirando” a pedra para que se revele a escultura escondida atrás do bloco de mármore? Mas, não seria melhor encará-la pelo método per via de porre, como na pintura, onde colocamos os elementos onde desejamos? Será mesmo que o sujeito “no seu melhor” está lá, guardado, sob os escombros de sua neurose? Não seria melhor pensar a Psicanálise como também uma técnica de subjetivação, de invenção de si mesmo, de uma prática ético-estética-existencial?

3.2) Mas, é preciso admitir que a frase de Freud tem algo de revelador: ele permaneceu o mesmo… “im Grunde”, no fundo… No fundamento, há algo, de fato, que não muda. Isso me parece… fundamental: por mais consciente que tenha se tornado o sujeito, por mais brilhantemente que saiba interpretar seus sonhos, por mais esperto que fique diante de seus atos falhos… ali, onde ele resplandece, paira, sempre, invisível, o que não cessa de se dar a ver, o inconsciente. Aí, nesse lugar, o sujeito permanece o mesmo. No fundo sem beira do inconsciente, no profundo do seu desejo, no indomável do pulsional, ele não muda e não há nada que a Psicanálise possa fazer quanto a isso… a não ser dotá-lo de um pouco mais de consciência – o sagaz contentamento, a gaia ciência – diante d’isso.

4) Pensem no tromp-l’oeil como metáfora primordial desse processo.

a) A obra yes/no, de Markus Raetz: http://youtu.be/FtyIIO9LoYo

b) Squaring the circle, de Troika: http://youtu.be/dVG4RwxDGA4

Quando eu fiquei surdo, o que mais me impressionou foi a boca da jornalista se mexendo. Quantas formas tem uma abertura. Meneava em imaginárias vogais. Meus olhos vogavam sobre aqueles lábios. E as imagens das pessoas mortas, das crianças desaparecidas, das guerras e dos loucos, da miséria e dos magnatas, todas essas imagens não diziam mais nada. Eu sempre gostei de mergulhar. O que me atraía era o fundo silêncio de fechar os olhos. Mas, quando eu fiquei surdo, eu já não podia fechar os olhos. O que mais impressionou, quando eu fiquei surdo, foi ver o tanto de mudo que havia.