Blog

frankenstein

[Sobre Frankenstein] A consciência de sua monstruosidade é diretamente proporcional a saber-se radicalmente desacolhido, não-amado. Por mais que Frankenstein tenha conhecido um ou outro momento de alegria, de amor, de reconhecimento… sua escolha final, procurar o abrigo de impossível hospitalidade, o pólo norte, é sinal de que nunca pudera vencer a grotesca ambivalência de ser a um só tempo filho desejado e amontoado de cadáveres. Imaginem o quão horripilante é Frankenstein. Suas cores fétidas e cadavéricas… É uma metáfora muito potente da coincidência entre ser e ser abjeto.

As origens alteritárias disso não podem ser esquecidas. De repente, o susto do pai: o que foi que fiz? O que desejei? Hybris do pai: desejar fazer um bebê sozinho, sem a presença de nenhum outro (não somente de uma mulher)… A hybris da onipotência é um outro nome para a solidão. Frankenstein, o filho, apenas leva adiante, de forma ainda mais aguda, o que lhe foi transmitido. E se Frankenstein tivesse tido um bebê (como a menininha da foto)? E se ele pudesse reparar seu abandono acolhendo alguém com quem se identificasse projetivamente?

Há algo em nós mesmos e no outro que é dessa ordem, da monstruosidade… Inacolhível, intratável? Questão de grau, talvez… cada um com um tipo de monstruosidade, com uma quantidade dela… alguns controlam bem a sua e toleram bem a do outro… a psicanálise coloca, me parece, essa questão: como tratar a minha monstruosidade? Como lidar com a do outro? Como traçar sua história e mudá-la de alguma maneira? Existem lugares não tão inóspitos nos quais a monstruosidade de alguém pode ser reconhecida de outra forma, não-monstruosa? (O conto de fada do patinho feio é uma versão mais feliz desse mito).

burro

Um dos fenômenos clínicos mais potentes para se mostrar como a razão é colonizada pelo pulsional é a teimosia, a burrice, a inibição intelectual pra uma tarefa (cognitiva ou afetiva). O sujeito pode ser advertido, inclusive por ele mesmo: “não vá nesse caminho!” ou “vá por ali, por ali é melhor!” e mesmo assim… persiste, burramente, no caminho que lhe conduzirá ao seu conhecido abismo, seu atoleiro mortífero… Dali ele dificilmente consegue sair: o absurdo prazer do masoquismo, o faz existir resistindo à mudança, repetindo infinitamente, disco arranhado, a mesma toada. Repetir (mesmo que seja a desgraça) é uma garantia de controle sobre como existimos. Repetir nos dá uma consistência ontológica… e se a repetição for marcada pela dor essa consistência parece ainda mais concreta, indubitável. “Sinto dor, logo existo”: é esse o melô do masô. Não é apenas porque é “gostoso apanhar” (muitas vezes esse prazer consciente da dor não está presente nos casos de masoquismo!)… é porque o prazer que dá consistência à tópica do eu é um prazer paradoxal: só sinto que existo na iminência de ser dilacerado. A repetição boçal, a estupidez afetiva, a teimosia que aponta para o fracasso: tudo isso são fenômenos clínicos importantes para demonstrar derivações do masoquismo mortífero…

 

V CONPDL

Vem aí o V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura!

Com o tema “Leituras interdisciplinares sobre violências de gênero: ‘o remorso de baltazar serapião’, de valter hugo mãe“, nesta edição o CONPDL se propõe a promover o diálogo entre a Psicanálise, o Direito e a Literatura no que diz respeito às violências de gênero.

A obra literária eleita para esta edição é o romance “o remorso de baltazar serapião“, de valter hugo mãe, que aborda, entre outros temas, o amor de um homem por uma mulher em meio a uma cultura patriarcal que supervaloriza os sentimentos dos homens em detrimento do reconhecimento da condição das mulheres como sujeitos de direito e de desejo. O livro representará no V CONPDL um aporte literário para se trabalhar asviolências de gênero sem pretender ser a única via para discutir essa questão sob os olhares da Psicanálise, do Direito e da Literatura.

O V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura acontecerá na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, entre os dia 14 e 16 de setembro de 2016. O envio de trabalhos a serem apresentados no Congresso e publicados nos anais do evento deve ser feito até o dia 30 de julho de 2016 e, para terem o seu trabalho aceito, as/os autoras/es devem se inscrever para participar do evento. As inscrições devem ser feitas no site da FUNDEP com prazo e endereço de página ainda a serem divulgados aqui no site, em breve. Para mais informações, clique aqui.

A falta da falta: nome da onipotência. A falta começa quando o bebê tem q lidar com o excesso deixado pelo(a) cuidador(a). A falta concreta do abraço que dá contorno e trilhamento pra essas primeiras excitações pulsionais circularem de forma não disruptiva, não caótica… Holding que faz tópica, faz um lugar, um contorno pro corpo. A falta do holding constitutivo, na justa medida, vai dando a certeza que existimos sem o outro, que podemos estar sozinhos na presença de alguém. No entanto, a falta desmedida nos ensina de forma bastante vigorosa: os excessos internos, por serem alteritários, precisam do outro para algum apaziguamento. Os apaixonados entendem isso perfeitamente!! Não é apenas a ausência de seu objeto de amor que lhes atormenta! É a presença permanente das marcas desse objeto, dentro do sujeito, em todos os seus poros, que é doloroso ter que suportar. E que grande alívio sentimos quando somos correspondidos, quando, no abraço do objeto, preservada sua autonomia como outro sujeito, sabemos que não estamos sós.

O ódio ama a hipérbole: “todos são canalhas”; “todos corruptos”; “tudo errado”.

*

O ódio ama a metonímia: “se há um x em y, todo y terá x”; “se fez isso uma vez, sempre fará”.

*

O ódio odeia o perdão e ama o que é fixo e imutável. O ódio faz acreditar que a alma humana é imutável: em sua maldade e/ou bondade.

*

O ódio odeia o matiz, a nuance, a transitoriedade das fronteiras e das identidades.

*

O ódio ama a certeza e despreza a dúvida, o pensamento e o diálogo (interno e também com o outro externo).

*

O ódio deseja, no limite, o apagamento de toda alteridade, de toda diferença.

*

Viver com o outro é uma espécie sofisticada de esconde-esconde, no qual é uma alegria se esconder e uma desgraça não ser encontrado… Façam trabalhar essa ideia de Winnicott… O ódio é sempre invasivo. O ódio odeia o respeito pelo espaço do outro.

*

O ódio sustenta a crença de que é possível eliminar, para sempre, o mal. O ódio, aliás, é mestre em designar o que é o mal e tem a renovada esperança de distingui-lo completamente do bem.

*

Para elaborar o ódio é preciso saber generalizações são sempre abstrações perigosas, um modo fácil de operar com a angústia produzida pela multiplicidade de sentidos da realidade humana.

*

Para elaborar o ódio é preciso um exercício contra metonímias, contra a lógica cínica de reduzir a parte pelo todo. A estratégia é sempre mostrar como outras partes, outros sentidos, estão sempre presentes.

*

Para elaborar o ódio é preciso saber que o perdão não significa esquecer, mas sustentar uma barreira contra o que nos violenta e invade. Manter esse não vivo, porém sem que ele vise a destruição do ódio ao qual visa barrar. É preciso sustentar a imagem do horror, lembar-se dele para que ele não se repita.

*

Para elaborar o ódio é preciso estar disposto à conversa infinita, a sustentar o exercício da suspeita permanente sobre nossas certezas. Criar um espaço no qual seja mais autorizado descontruir para reconstruir diferentemente. O avesso do ódio é tomar a estética como modo de vida: é sempre preciso criar mais, reinventar, mantendo vivo o processo dialético entre desconstruir e reconstruir.

*

O ódio sustenta a distinção entre o eu e o não-eu. Separar-se, constituir-se como unidade requer ódio. É preciso o lento trabalho do amor para lembrar que a tópica da diferença assim instituída admite porosidades, fronteiras mais fluídas. Abrir espaço para as delícias das identificações, dos compartilhamentos, do estar junto: sem perder-se e sem se impor em demasia. Sustentar a tensão, muito mais que tentar resolvê-la…

É preciso ainda fazer trabalhar a ideia de que durante muito tempo ouvimos e compreendemos o outro antes, muito antes, de poder articular uma palavra. Muito antes ainda de poder articulá-las com sentido para nós mesmos e para o outro. E ainda muito antes de poder falar sobre o que falamos.

Bem, penso que essa passividade radical marcada pela escuta (já denunciada há muito por Plutarco) será recalcada como o é, em grande medida, as múltiplas formas da passividade da situação antropológica fundamental.

E qual é o principal retorno desse recalcado? Aí é q está: a recusa a ouvir o outro. É como se disséssemos: “vc que me obrigou a te ouvir, muito antes de meu eu estar lá… q me obrigou a te ouvir de tal forma a para sempre te ser devedor da palavra, bem, agora, não te escuto mais… me recuso. Falo como se nunca tivesse te escutado, falo como se a incompreensão fosse o principal da comunicação, falo para não ser compreendido, falo, enfim, para não ser escutado, tal como gostaria de não ter escutado nas origens, prova máxima de minha passividade excitante e angustiante”.

Esse é o canal no YouTube do IV CONPDL:

 

https://www.youtube.com/channel/UCPBHy9UfYoSv0umo_K3sFuw

 

Aqui vocês vão encontrar todas as mesas do IV CONPDL.

 

Os anais estarão sempre disponíveis em: http://www.conpdl.com.br/

Palestra proferida com Prof. Paulo César Ribeiro, na USP, sobre narcisismo, gênero e sexualidade.

 

https://www.youtube.com/watch?v=laoyarWZUfw&feature=youtu.be&t=6h16m37s

Plutão

Um coração em Plutão.
Um rabo de baleia (ou sereia?).
Um pato, um cão.

Cada um vê o que quer e o que consegue.
Qualquer pedra se faz enigma.
O Rorschach imita a vida que imita a arte.

Movidos pela vã esperança de sermos,
muito longe, bem diferentes,
afinal, poderemos inventar/descobrir/destruir outros mundos?

Entrevista para a TV Minas sobre o livro “Os ciúmes dos homens”.

Parte 1

Parte 2