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Dia desses, cometi um lapso de memória. Dizia aos alunos que Freud havia escrito que o conflito psíquico era como uma luta entre a baleia e o urso polar. O trabalho analítico, dizia ainda esse Freud imaginado, teria como tarefa fabricar um ringue possível para essa luta.

Qual não foi minha surpresa, ao retomar o texto de Freud, com a promessa de endereçar a passagem correta aos alunos, encontrar algo em nada semelhante à minha lembrança. A luta era entre a psicanálise e outras teorias e nenhum sinal de trabalho para fazer a luta acontecer! Ao contrário: Freud está dizendo claramente que a luta é impossível e que tais controvérsias são infrutíferas. Continuar lendo…

EXTENSÃO:

  • Os dois formulários de Atividade Acadêmica Optativa:
    • Relatório de Conclusão
    • Proposta de Trabalho
  • Em caso de palestras e seminários, cópia dos certificados.
  • Em caso de Projeto de Extensão:
  • Cópia do Projeto com aprovação pela Câmara Departamental
  • Registro no CENEX
  • Trabalho final, com nota e conceito dados por um professor do Departamento de Psicologia, a convite do aluno.

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O poder pastoral coloca para funcionar tecnologias que fabricam a um só tempo o indivíduo e o rebanho. De maneira geral, tal modo de dominação se exerce a partir de práticas de exame de si mesmo, geralmente conduzidas por um outro ou já internalizadas ao longo do tempo. A psicoterapia, a meu ver, continua a história dessas práticas confessionais.

Um conceito começa a aparecer no século XX de forma mais clara, mais precisa e mais impositiva: a responsabilidade. A impressão é que vamos laicizando a culpa. O ideal externo passa do par alma/deus para o par indivíduo/cidadão-empreendedor de si mesmo. Ainda há um ideal externo, um modelo a ser seguido pelo indivíduo e pelo rebanho. A responsabilidade é um conceito-dobradiça, é a charneira entre o individual e o coletivo. Pede-se sempre que o sujeito se responsabilize e ao fazer isso estamos conduzindo-o a um certo modo de agir.

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O ciumento, muitas vezes, se comporta como a criança que deseja exclusividade do amor dos pais. Algumas crianças se sentem angustiadas quando veem seus pais dando atenção a outras pessoas ou a outras crianças (os irmãos, incluídos). É como se ainda não conseguissem compreender que seus pais podem amar outras pessoas sem deixar de amá-las. Exigem uma permanência concreta do amor, como se o afastamento momentâneo colocasse em risco a própria existência da relação. O ciumento é apaixonado: a passividade que expressa diante de seu objeto de amor é de tal ordem que o faz imaginar que, sem esse amor, ele não seria ninguém.

O ciúme é uma das primeiras formas de simbolização do desamparo. O ciumento diz claramente: não ame ninguém para além de mim; sem seu amor, eu morro. Desamparo invertido e transformado num insaciável desejo de onipotência, onipresença e onisciência. O ciumento quer tudo do objeto. Quer ser o único a produzir alegria no objeto de amor, quer saber de tudo dele, quer estar o tempo todo presente. Numa palavra: quer ter poder total sobre seu alvo amado. O ciúme é como o amor dos que amam os pássaros apenas nas gaiolas. O ciúme é o contrário da liberdade: tanto para o ciumento quanto para o próprio alvo desse afeto. É estar aprisionado ao outro desejando fundir-se a ele. No limite, a única forma de controlar completamente o outro é se transformando nele. O amor enciumado tem uma viscosidade paralisante e mortífera para todos os envolvidos. Continuar lendo…

Larissa Bacelete foi minha aluna de introdução à Psicanálise, pelos idos de 2004. É dessas alunas que marcam nossa história, pois deixam claro que o desejo de saber fica ainda melhor na amizade. A amizade entendida aqui como uma relação amorosa que se assume marcada pelo acaso do encontro e pela força do desejo como única garantia do estar-junto.

Ao longo desse tempo, muitos grupos de estudo, muitos encontros, muita produção conjunta de saber. E agora temos o lançamento de um fruto maduro e precioso que é sua dissertação de mestrado em formato de livro:

Como já tentei dizer no Prefácio do livro, essa obra me parece indispensável para quem procura uma interpretação crítica da perversão. Próxima ao pensamento de Jean Laplanche e também valendo-se de outros autores (Bonnet, McDougall, Rousillon), Larissa nos apresenta uma hipótese brilhante sobre as origens da perversão. Contrariamente ao que o senso comum apressadamente conclui, o perverso não deve ser caracterizado como monstro ou radicalmente distinto de todos nós. Apontar para a história libidinal do perverso é fundamental não apenas para dar a esse arranjo psíquico uma possibilidade de escuta mais acolhedora e mais disponível para propor novos arranjos menos violentos, não no sentido moralizante, mas no sentido terapêutico naquilo que ele tem de mais precioso e ético. Continuar lendo…

É curioso… há algumas relações amorosas que depois de terminadas precisam ser retomadas para que terminem definitivamente.

Funciona como um estranho processo de luto e insight. É preciso ressuscitar o objeto que já sabemos morto, ter com ele, reviver ainda as mesmas desgraças que queríamos evitar. Até que, nesse segundo tempo, uma certeza se instala e acaba por matar aquela esperança cheia de veneno masoquista (“e se tentássemos ainda mais uma vez?”). O tempo das mãos limpas, de ter tentado no seu melhor conviver com o outro e reconhecer, definitivamente, um impasse, o impossível de qualquer interseção. Ou melhor, que a interseção se fazia no mal-estar, trazendo o que havia de pior em cada um dos parceiros.

Esse tempo não é apenas o tempo do término. É parte importante do recomeço, finalização de um luto que precisou ainda por um momento trazer de volta o que havíamos hesitado em sepultar.

Essa vivência parece ter uma outra dobra: na verdade, não é apenas desse objeto de amor atual que queríamos nos livrar. Ter vivido o término em dois tempos é um modo de dizer pra si mesmo que é preciso re-examinar uma relação ainda mais pretérita… Como se disséssemos para nós mesmos que há ainda algo do passado a ser resolvido. O insight é desse luto-com-a-presença-do-objeto é esse: é de grande alívio se livrar do morto atual, mas é ainda mais impactante reconhecer que não era esse o cadáver insepulto, mas um outro, cuja presença e influência no nosso fracasso amoroso só agora, através dessa penosa vivência, podemos reconhecer…

Olá, pessoal!

Reitero convite que fiz aqui aos alunos que já foram aprovados em Psicanálise I e II. A partir do dia 05/03/13, começo um grupo de estudos sobre o ciúme masculino. Também é sobre esse tema as 5 bolsas de iniciação científica voluntária que estou pedindo. Aos interessados:

O programa do grupo de estudos: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/disciplinas/grupodeestudosciume.pdf

E o projeto de pesquisa: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/pesquisa/projetociumenet.pdf

Fiquem à vontade para comparecer à sala 3003, na Fafich/UFMG, nessa terça, dia 5/3/13, para o primeiro encontro do grupo.

Numa análise, uma das coisas mais importantes que o neurótico obsessivo pode atingir é o reconhecimento de sua impotência. De maneira geral, o obsessivo é aquele que acredita tudo-poder, tudo-saber. Sua obsessão por organizar o mundo, dar sentido fixo às coisas, é sinal dessa onipotência de várias faces.

Giorgio Agamben recupera de forma exemplar a teoria da potência de Aristóteles para nos ensinar que só sabemos efetivamente de nossa potência quando podemos, efetivamente, poder não fazer. O exemplo é simples: o fogo pode apenas queimar. Ele não pode não poder queimar. Assim também é com a maior parte dos animais: podem apenas fazer o que determina sua potência particular: uma formiga não pode não-poder-fazer seus buracos na terra…

Nulla rende tanto poveri e cosí poco liberi come questa estraniazione dell’impotenza. Colui che è separato da ciò che può fare, può, tuttavia, ancora resistere, può ancora non fare. Colui che è separato dalla propria impotenza perde invece, innanzitutto, la capacità di resistere. E como è soltanto la bruciante consapevolezza di ciò che non possiamo essere a garantire la verità di ciò che siamo, cosí è solo la lucida visione di ciò che non possiamo o possiamo non fare a dar consistenza al nostro agire. (Nudità, p. 69-70)

Traduzindo, rapidamente: nada torna tão pobre e tão pouco livre como esse desconhecimento da impotência. Aquele que é separado daquilo que pode fazer, pode, entretanto, ainda resistir, pode ainda não fazer. Aquele que é separado da própria impotência perde, por sua vez, antes de tudo, a capacidade de resistir. E como é apenas o irritante [incendiário...] reconhecimento daquilo que não podemos ser que garante a verdade do que somos, também é só a lúcida visão daquilo que não podemos ou podemos não fazer a que dá consistência ao nosso agir.

Ora, o que Agamben, via Aristóteles, está tentando demonstrar é que alguém compelido ao fazer, que não consegue se distanciar do que faz, é pobre em liberdade. Nossa liberdade é sempre marcada por esse negativo de não poder fazer. Isso é como eleger Bartleby como um modelo literário dessa liberdade: preferir não fazer, como faz o personagem de Melville, é o início de toda liberdade possível. Na neurose obsessiva, preferir não fazer, finalmente, poder não-poder, é uma libertação.

Obviamente, não se trata de ir até onde Bartleby foi. Poder inclusive não-poder viver… A literatura, mais uma vez, mostra o que está em jogo, de forma muito radical: a vida, como um todo, é determinada por esse distanciamento de nossa potência. Reconhecer essa impotência, poder não fazer, vale para todas as tarefas da vida, inclusive para o próprio viver.

A compulsão do obsessivo – “ter que fazer”, “não poder não fazer” – acaba por transformar a pulsão num tipo de instinto. Aquilo que caracteriza a liberdade pulsional – poder ser e fazer sempre mantida a possibilidade de poder não ser e não fazer – é recusado pelo obsessivo. Ao longo de seu processo analítico, o que se busca é justamente um pouco mais de espaço para o reconhecimento dessa impotência que se confunde com a liberdade.

A liberdade pulsional, no limite, autoriza a plena contingência do que somos e fazemos. Humanos podemos matar crianças e adotar bebês na mesma proporção. Podemos fazer arte e guerra: ao mesmo tempo… Podemos prolongar a vida ou simplesmente suspendê-la. Pensemos na morte que desejamos e na que desejamos evitar.

Não seria também, no fundo, contra um terrível desejo de morte, que tudo desorganiza e confunde, que o obsessivo luta? Não seria por esse motivo sua compulsão a controlar a vida, no sentido de manter a vida viva, mais que vivê-la, de forma menos onipotente? O obsessivo é um Bartleby que luta contra esse desejo final de poder não ter que viver.

Lição expandida para todos: a vida que temos não tem que ser vivida necessariamente. Se esse pensamento, inevitavelmente, traz a sombra terrível do auto-extermínio, precisamos dele, no entanto, para mudarmos de vida, escolher outros caminhos. E só conseguimos mudar quando conseguimos reconhecer que não precisamos, que não somos obrigados, a continuar a viver como vivemos. Que há sim possibilidades – duramente conquistadas, fruto de muita elaboração psíquica – de poder não fazer, de poder não viver algumas formas de vida e de se autorizar, também no limite, a poder não saber o que nos espera.

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

in ‘Vaga Música’, Cecília Meireles

Um dos meus poemas prediletos da Cecília. Há uma melancolia realista aqui? Meu ponto é: não concluímos depressa demais ao afirmar que, devido a esses tantos desencontros que temos uns com os outros, o melhor mesmo não seria apagar todo desejo de estar com o outro?

Ora, mas não poderia advir daí, dessa melancolia, de finalmente entender que ninguém é objeto de alguém (para ser sua, minha, tua, meu…), não poderia advir daí o desejo de estar com o outro muito mais do que entregar-se a ele ou possui-lo, apagando toda a alteridade do encontro?

Se pensarmos a partir da psicanálise, parece haver um ideal analítico no que tange ao amor: deixar cair a ilusão do encaixe perfeito, do encontro sem arestas… a ilusão de que haverá um “astrólogo” não arbitrário! Afinal, esse encaixe não faz referência, sempre, às simbioses mais primitivas que temos com a mãe? Um encaixe, esse sim e apenas esse, onde “eu sou teu e tu és minha, de tal forma que eu e tu sejamos um só a ponto de não haver mais nem eu nem tu”. Ideal romântico por excelência, onde está para sempre proibido o reconhecimento do desejo de não estar com o outro, de não ser por ele tutelado, proibido também o desejo de poder responsabilizar-se pelo que se é, proibida a alegria de poder inventar-se.

Deixar cair essa ilusão para entender que o amor é uma forma de estar (sozinho) com o outro. Que esse encontro só se sustenta pelo desejo de estar junto… mesmo com as arestas.

Nunca, nunca, porque os astros assim determinaram. Nunca, nunca, porque as almas foram feitas uma para outra. O lamento pela alteridade do outro – “que pena o outro ser de fato outro e não ser o meu objeto obediente!” – deve ser ultrapassado.

É preciso – maturidade do amor? – elogiar a alteridade do outro. Para aproveitar a metáfora de Cecília: o elogio da lua ao sol que, enquanto lua, não lamenta o fato do sol ser sol. Ao contrário: finalmente, poder reconhecer que é dele a luz que reflete nela, que a torna visível. Do outro lado, o sol deixa de lamentar que a lua não é um outro sol. Ele percebe é graças a ela que ainda uma parte importante de sua luz pode ser ainda vista à noite.

O outro nos salva de uma certa invisibilidade. Só nisso o outro é como nós: os dois estão cercados pela mesma noite. Abrir mão do outro – enquanto outro – é retornar para essa noite. Essa noite é o espaço e o tempo antes do reconhecimento do infinito descompasso entre o eu e o outro ser possível. Tão logo esse descompasso se torna possível, lamentamos o fato e desejamos voltar ao momento anterior. No entanto, só retornamos àquela noite se também abrirmos mão do que somos.

O nome do desejo de permanecer nessa noite, para a psicanálise, é melancolia. A verdade dessa noite, seu realismo, não implica – e não pode fazer concluir – que estamos sós. Um passo a mais, com Winnicott: estamos sós com o outro. Entender esse paradoxo é fundamental para esse leve, mas poderoso deslocamento: extrair dessa melancolia inicial algum lugar de sustentação nas relações amorosas.

Ser outro para o outro. Por um lado, lamentar não termos sido engolidos pelo outro; por outro, nos alegrar por ter escapado – também com o auxílio do outro – dessa devoração (a um só tempo mortífera e excitante). O caminho vai de se sentir “lua adversa” para se reconhecer como “lua diversa”. Divertere é separar-se. Talvez não seja mero acaso (de um astrólogo arbitrário…) que esse mesmo verbo dará origem também a divertir-se. Para poder brincar com o outro (brincar, para Winnicott, é um outro nome para amar), é preciso separar-se dele. E há sim muita alegria a se extrair daqui.

Imagem bem interessante de Igor Morski. Talvez nos ajude a entender algumas passagens de Winnicott sobre o papel do pai em fazer o holding ao lado da mãe. Mais que fazer o holding da mãe – ajudando-a, dando a ela a tranquilidade para fazer o holding do bebê – o pai faz também o holding… ajuda a remar o barco.

A imagem ainda traz a criança segurando seu ursinho, objeto transicional, isto é, aquele objeto que é muito mais que representação da mãe: representa o dentro-fora dessa relação, o transicional, o entre-lugar do amor. A figura de Morski é interessante também nesse sentido: reflexos que têm a consistência do real, algo submerso mas tão importante quanto o que está na superfície.

Uma questão: por que o bebê não aparece refletido submerso? Seria metáfora do tempo necessariamente distante da figura paterna típica? O pai trabalha, fica longe de casa, e perde o contato com o filho. No entanto, seu trabalho é ainda parte da sustentação do par mãe-filho.