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Colocar trecho do Freud

Estava lendo alguns contos de fada para meu filho, Antônio, quando me deparei com o clássico “A Princesa e o Sapo”. Ao lê-lo, as imagens (retiradas do ótimo aplicativo para iPad, Tabtable Books) me chamaram a atenção. A primeira é a expressão de nojo da princesa:

A segunda é a cena clássica do beijo transformador:

E a terceira é a aparição do príncipe:

1. Pedagogia amorosa

Ao fazer uma pesquisa para escrever esse texto, qual não é minha surpresa de descobrir, através do indispensável Fadas no Divã (Corso & Corso, 2006), que a cena do beijo é uma adaptação moderna. Na verdade, a história dos irmãos Grimm nos conta que a princesa, não suportando o nojo de ter que conviver com o sapo, o joga contra a parede. E é isso que o faz transformar-se em príncipe.

Voltemos, porém, ao início. Trata-se de uma mocinha mimada que perde sua bola num poço. Um sapo diz que poderia pegar a bola, desde que ela o levasse para sua casa: comesse, brincasse e até dormisse com ele! Ela, mentirosa, diz que sim. Ao recuperar o brinquedo, a menina mimada corre pra casa descumprindo o acordo. O sapo vai atrás dela e narra o acontecido ao Rei. O pai da princesa, então, faz com que ela cumpra o combinado. Ela suporta jantar com o sapo e até brincar, mas é tomada pelo nojo ao ter que dormir com ele. E é aí que ela o joga contra a parede. Para sua surpresa, seu ato de rebeldia é recompensado com o aparecimento do belo príncipe.

A primeira interpretação de Corso & Corso salienta a perspectiva de uma educação sentimental:

O jogo erótico-agressivo evidencia que um pacto amoroso não é inicialmente pacífico, só depois que o sapo se tornou inconveniente ao extremo e a princesa totalmente intolerante é que eles descobrem o amor. A primeira marca não é de fascínio mútuo. Antes que o amor os torne sempre tão repetitivamente belos, eles terão que vencer a fera que há dentro de cada um. (Corso & Corso, 2006: 131)

Os autores lembram que a descoberta do vínculo amoroso leva os envolvidos a lidarem com as diferenças e essa proximidade repleta de atritos contribui para o caráter agressivo dos primeiros amores.

A segunda interpretação dos autores, leva em consideração a descoberta de Freud de que o ato sexual é compreendido como violento pelas crianças. Bettelheim (1980) lembra a semelhança entre o sapo e o pênis (p. 330) e Corso & Corso (2006) lembram que a princesa talvez tenha nojo do sapo, pois ele tem o “péssimo hábito de inchar e intumescer, como soe ocorrer aos órgãos sexuais quando excitados” (ibid.: 134). Ultrapassada a concepção infantil, a princesa poderá ver que o homem (e seu pênis!) não é tão asqueroso, mas um objeto de amor através do qual ela pode sentir prazer.

2. O desejo onipotente de mudar o outro

Gosto das interpretações de Betelheim e do casal Corso. Acredito, no entanto, que podemos ir além. Tenho duas interpretações que gostaria de compartilhar aqui pensando num fenômeno clínico descrito como esse mau encontro de um casal. O desencontro de se deparar com alguém com quem o sujeito deseja mudar. Essa é a primeira interpretação: tratar o outro como sapo é parte do meu desejo de mudá-lo com meus “beijos” – ou, como na versão mais antiga – com minha violência.

Ora, amar alguém, querer permanecer com alguém a quem desejamos modificar substancialmente… parece um desses momentos de irracionalidade que denunciam a presença de desejos e fantasias inconscientes em ação. Um racionalista diria simplesmente: se as diferenças entre vocês são tão grande, se, para ficarem bem um com o outro, um dos dois teria que mudar radicalmente, não seria melhor procurar um novo parceiro?

É claro que em toda relação amorosa há um intenso jogo de poder. Poder aqui compreendido no sentido mais amplo possível: o desejo e a ação de conduzir as condutas do outro, de exercer sobre elas domínio, controle ou forte influência. Do jeito de se vestir ao que dizer em público, das carícias à escolha do que fazer no final de semana. Tudo o que se faz é fruto de acordo, de concessão, de solidariedade ou, em casos mais explícitos, de controle e submissão.

Não é disso que estou falando. Falo da situação na qual o parceiro é visto como alguém intolerável ou como agente de uma ou mais ações intoleráveis. Pode ser um traço de caráter (é preguiçoso, é guloso, é workaholic…), pode ser um hábito ou vício (não transa tanto quanto gostaríamos, bebe demais, não consegue se desligar dos pais, não gosta das mesmas músicas ou dos mesmos programas de entretenimento…). Estou enfatizando esses casos nos quais a velha e boa “conversa sobre a relação” não opera mais nenhum efeito. A situação limite na qual nos vemos efetivamente casados com um batráquio. Isso serve para qualquer relação amorosa: entre pais e filhos, entre namorados e também para muitas relações de trabalho. Uma situação da qual queremos nos ver livres, mas na qual, mesmo assim, permanecemos.

Não poderíamos ver aí, do lado da “princesa” (obviamente, isso vale para ambos os sexos), um desejo onipotente de transformar o outro? Não é isso que vemos naqueles que começam um relacionamento movidos pela esperança de que o outro vai mudar? Bruno Bettelheim situa a mocinha da estória do lado do princípio do prazer:

Ainda dominada pelo princípio do prazer, a mocinha faz promessas para conseguir o que quer, sem pensar nas consequências. Mas a realidade se afirma. Tentar fugir dela fechando a porta para o sapo. Mas o superego, na forma do rei, entra em cena: quanto mais a princesa tenta ir contra as solicitações do sapo, tanto mais o rei insiste em que ele cumpra suas promessas integralmente. O que começou na brincadeira torna-se sério: a princesa deve crescer à medida que é forçada a aceitar os compromissos que fez. (Bettelheim, 1980: 328)

Duas observações aqui: (1) há algo de infantil no desejo de mudar o outro; (2) e, como no conto de fada, aquele que deseja mudar o outro parece dependente dele: seja para pegar a bola no poço, seja porque se sente compelida a permanecer com o outro. (Mais uma vez, a leitura feminista poderia nos alertar para o sadismo desse pai que não propõe nenhuma solução de compromisso com o sapo: você pode até brincar e comer com ela, mas só dorme com ela, se ela quiser…)

3. Com a outra ele vai ser príncipe!

Uma fantasia típica nessas “princesas” é que, quando finalmente conseguem terminar a relação, imaginam que seus sapos serão príncipes com o próximo cônjuge.

O “osso duro” finalmente se transformará em macio filé. Não será, entretanto, para o deleite de quem amargou tanta dureza! Será para a outra!

Ali, onde havíamos pressentido a fantasia onipotente de mudar o outro, agora, observamos a falência do eu, sua máxima impotência, corroído pela inveja do terceiro que granjeará todos os encantos do objeto a nós recusados!

A repetição de relações amorosas desse tipo apontam para uma incapacidade de integrar em si mesmo e no outro aspectos bons e maus. Um dos primeiros mecanismos de defesa, a cisão, separa o bem e o mal de forma muito radical. Melanie Klein e Donald Winnicott apontam como sinal de desenvolvimento psíquico uma maior integração desses elementos:

Se o desenvolvimento transcorre favoravelmente, o indivíduo torna-se capaz de enganar, mentir, negociar, aceitar o conflito como um fato, e abandonar as idéias extremas de perfeição e do seu oposto, que tornam a existência intolerável. O compromisso não é uma característica dos insanos. // O homem maduro nem é tão bonzinho nem tão desprezível quanto o imaturo. A água no copo é barrenta, mas não é barro. (Winnicott, 1990: 160)

O compromisso não é uma característica dos insanos… e nem das crianças imaturas. Aceitar que temos e que o outro tem defeitos, que todos nós somos uma espécie de sapríncipes… é sinal de que as fortes cisões que nos protegiam no início da vida já não são mais necessárias. Isso não quer dizer que devemos aceitar tudo o que incomoda em nós mesmos ou nos outros. É claro que é possível mudar algumas coisas. O que estou sugerindo é que esse desejo de mudança (1) não deve partir de uma exigência idealizada; (2) deve ser mais aberto aos matizes e ao “barrento” da vida cotidiana e (3) não deve se balizar por valores universais muito abstratos (lembrar que, para alguém que deseja ser sapo, a princesa é uma chata), isto é, levar em consideração que cada um vai se arranjar como pode (de forma singular) diante desses ideais de perfeição.

4. Complexo de Édipo como matriz amorosa

O Complexo de Édipo ainda continua a ser uma importante referência para compreendermos a vida amorosa. Por Complexo de Édipo, compreendo todo o conjunto de relações amorosas que temos com os adultos que cuidaram de nós nos primeiros anos de vida.

No caso da fantasia de ter se casado com um sapo e ter que passar pelo suplício de transformá-lo em príncipe, encontramos uma explicação na triangulação típica do Édipo. Temos que convencer um dos cônjuges a mudar radicalmente de posição: um dos pais deve deixar o lugar de pai e trocar de posição com o filho. É como se o filho, por exemplo, pedisse à mãe para mudar: seja minha mulher e façamos desse terceiro um outro qualquer! É como se a filha pedisse ao pai: seja meu marido e largue esse vício que é minha mãe!

O recalcamento de nossos desejos incestuosos se encarrega de colocar sobre todos esses desejos incestuosos o manto do nojo e do asco. Aqui, o conto de fada é preciso ao fazer do parceiro um sapo. É disso que se trata: beijar esse sapo seria nojento demais, horrível demais. Desejar transformá-lo em príncipe requer uma mudança radical, muito além do possível.

A mesma matriz edípica explica a fantasia pós-término. De fato, é assim que acontece: o pai prefere ficar com a mãe, a mãe permanece com o pai. É como se a criança pudesse dizer: “por mim, ele não mudou, mas com (ou por) ela, ele muda!”.

Espero que o leitor compreenda aqui que estou sendo didático. Não é preciso um pai e uma mãe para haver Édipo. Nem casamento heterossexual típico. Basta haver esse cuidado de um ou mais adultos endereçado à criança. Basta que a criança possa tomar esses adultos como alvo de seus desejos. Diante disso, a repressão – a começar pela recusa ao incesto – e o recalcamento desses desejos fecha a cena edípica.

O que é importante nessa primeira interpretação é guardar o caráter onipotente, tipicamente infantil, que vemos nesse desejo de acusar o outro de sapo, de querer mudá-lo. Percebam que há também uma boa dose de sadismo aqui: permanecer com o outro e passar o tempo todo demandando que ele mude, que ele se emende, que se corrija, não deixa de ser sádico, principalmente, quando o sujeito conta com o álibi social de que o que é demandado é a correção de um vício ou hábito socialmente menosprezado.

5. O sapo e seu brejo

Se há sadismo em criticar o outro permanentemente, em não saber conviver com os “defeitos” que nos incomodam… há também masoquismo.

Antes do moralismo, da pedagogia sentimental, da onipotência de tentar mudar o outro, há o masoquismo de se desejar permanecer com o sapo, de permanecer em seu brejo fétido.

Ao contrário do que aparece na consciência, o sujeito não quer que o outro mude. É seu manancial de sofrimento, sua fonte inesgotável de dor. A experiência da passividade devidamente garantida: o outro nunca vai mudar, sempre vai me fazer sofrer e eu sempre vou poder acusá-lo disso. Um duplo ganho! O masoquismo de permanecer no brejo das diferenças radicais e o sadismo de poder acusar o outro de me fazer sofrer e de ser “errado”.

As raízes desse masoquismo são pré-edípicas. Antes talvez da entrada de um terceiro ou de alguém que pudesse competir com a díade formada entre o bebê e sua mãe. A passividade experimentada pelo bebê junto à mãe é, em grande parte, prazerosa. Ele pode, quando estamos diante de uma mãe suficientemente boa, se entregar a ela tranquilamente. No entanto, quando essa mãe não é boa o suficiente (está deprimida ou preocupada demais, p.ex.), esses momentos de passividade são sempre traumáticos e precisam de elaboração posterior. Uma forma de elaborar esse trauma é revivendo essa experiência, como num experimento controlado. É como se quiséssemos reviver uma situação de acusação-e-demanda com uma mãe que sempre deu insuficientemente ou precariamente ou venenosamente… Um parceiro “errado” cumpre bem essa função. Queremos, inconscientemente, convencer nossas mães de que elas estão mesmo erradas e que devem deixar de ser sapas e se transformar em princesas generosas… A grande questão é que esse tempo já passou e que o recalcamento desse tempo pré-edípico fará seu retorno nessas relações amorosas mortíferas e repetitivas, nas quais nos sentiremos dependentes do outro (só o sapo sabe pegar a bola de dentro do poço!), um outro ao qual o tempo todo desejamos mudar de forma radical.

É bem possível, como acontece na histeria, que, se o outro mudasse e finalmente se transformasse em príncipe, o sujeito em questão arrumaria um outro sapo. A questão não é esse parceiro específico, mas a parceria (e a parceira) inicial. É essa demanda que tem que ser formulada e renunciada ao longo de uma análise. Querer apenas o seio bom e não reconhecer que ele é o mesmo que o seio mau, exigir que o objeto de amor seja todo-bom, é a receita para o sadomasoquismo. Por isso é, muitas vezes, tão difícil terminar relações amorosas desse tipo. Admitir nosso sadismo e nosso masoquismo já é complicado. É ainda mais complexo renunciar aos prazeres daí provenientes e dar a eles outros destinos.

Duas tirinhas que indicam um pouco desse acolhimento dos matizes do amor:

Não precisamos aceitar tudo o que vem do outro… principalmente se for “over”. O outro não é também obrigado a aceitar tudo o que vem de nós…

E muitas vezes, o melhor a fazer é deixar o siri (o sapo… curiosa animalidade do outro-indesejável) tal como ele está.

Referências

Bettelheim, Bruno. A psicanálise dos contos de fada. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

Corso, Diana Lichtenstein & Corso, Daniel. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: ArtMed, 2006.

Winnicott, Donald. Natureza Humana. Trad. Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

“sem espalhar água! Sem bagunça!”

Nesse último feriado, estava num hotel, nadando na piscina infantil com meu filho de dois anos de idade. Ao meu lado, um pai e sua filha também se divertiam. Ou nem tanto. A cena me chamou a atenção: quando a menininha, também com 2 ou 3 anos, começava sua algazarra, batendo os bracinhos e espirrando água, o pai logo intervinha: “sem espalhar água! Sem bagunça!”. Ora, pensei, se não era ali o lugar da bagunça, onde mais? Se ali ela não pudesse “molhar” o pai à vontade, quando poderia?

E por falar em amor…

A cena é ensejo para pensar no amor como modo de dominação. De forma geral, temos horror a pensar nisso. Idealizamos o amor como um tipo de afeto entre duas pessoas que irá sempre trazer coisas boas, liberdade mútua, respeito. De acordo com a visão popular, tudo que acontece entre duas pessoas, mas que não seja marcado por essa positividade idealizada, não merece o nome de amor. Ainda continuamos platônicos: o amor é o encontro entre almas gêmeas, onde tudo se encaixa, onde tudo é perfeito e sem arestas. A meu ver, é importante criticar essa imagem idealizada, pois é fácil acusar o outro de não saber amar caso não sejamos atendidos em nossos desejos. Antes de comentar esse ponto, permitam-me comentar a cena prosaica acima, interpretando um poema de Ricardo Reis:

Não só quem nos odeia ou nos inveja

Nos limita e oprime; quem nos ama

Não menos nos limita.

Que os deuses me concedam que, despido

De afectos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada

É livre; quem não tem, e não deseja,

Homem, é igual aos deuses.[2]

O poeta certamente exagera: não ter afetos é ser livre. Exagera porque a sensação de liberdade provém de um eu que foi construído a partir da relação (amorosa) com o outro. Deve haver um eu que diga: “sou livre!”. Ora, esse eu só pode ter sido fruto de relações amorosas e políticas historicamente determinadas, portanto, fruto de afetos e para sempre tributário a eles. Libertar-se deles implicaria em livrar-se de si mesmo. A metáfora do caminhão desgovernado é válida aqui: o caminhão que desce, ladeira abaixo, sem freio e sem motorista, não é uma boa imagem para a liberdade. Melhor seria a metáfora do caminhão que pode seguir seu caminho, mesmo que obedecendo a certas regras, negociando com outras etc… A “fria liberdade dos píncaros sem nada” é tão terrível, assim me parece, como a liberdade do caminhão desgovernado.

No mesmo hotel, a mesma cena se repetia entre diversos filhos e pais – eu incluído: não toque nisso, não faça aquilo, volte aqui, agora não, vamos tomar banho, vamos dormir… A criança precisa de limite. Liberdade, do ponto de vista da criança, não pode ser confundido com um tudo-fazer ou um tudo-poder. Ao contrário: liberdade parece ter a ver com fazer a partir do olhar e da palavra do outro, atravessado pelo sentido que o outro dá à ação da criança. Ao mesmo tempo em que essa palavra qualifica a ação da criança, também pode oprimi-la.

O amor também oprime

O ponto do poema que me interessa é essa idéia fundamental a desenvolver: o amor também nos limita, também nos oprime. Talvez o pai da cena narrada quisesse ensinar à filha os bons modos de uma menina. Que isso tenha me parecido um excesso – freio demais no caminhão – depende exclusivamente do que podemos discutir sobre como deve se comportar uma criança dentro de uma piscina e, mais genericamente, sobre como devem se comportar as crianças, a quê devem ser estimuladas, quando e de que maneira. Não importam quais regras desejemos impor: essas regras sempre existirão, por mais amorosas que sejam, por mais suaves que possam ser enunciadas. E nesse sentido o amor oprime. Tanto quanto o ódio ou a inveja, como salienta o eu-lírico. Já me vali, em outro texto[3], de uma passagem brilhante de Winnicott que explica o efeito positivo dessa dominação no amor:

A criança cujo lar não conseguiu dar-lhe um sentimento de segurança procura fora de casa as quatro paredes que lhe faltaram; tem ainda esperança e busca nos avós, tios e tias, amigos da família e na escola o que lhe falta. Procura uma estabilidade externa, sem a qual enlouquecerá. Fornecida em tempo adequado, essa estabilidade poderá consolidar-se na criança como os ossos no seu corpo, de modo que, gradativamente, no decorrer dos primeiros meses e anos de vida, passará da dependência e da necessidade de ser dirigida para a independência. (Winnicott, 1979, p. 257, grifos meus)[4]

No artigo citado, ainda comentei: pode-se notar que Winnicott subverte a idéia de que a criança sem limites, sem um sentimento de segurança, está entregue ao prazer e se sente absolutamente livre. Ao contrário, ela precisa de limites para se sentir livre e para não enlouquecer. Caso a criança não consiga fazer desse controle algo interno – é curiosa a metáfora dos ossos utilizada por Winnicott – ela tentará fazer com que esse controle seja externo: “a criança anti-social, doente, sem oportunidade para criar um bom “ambiente interno”, necessita absolutamente de um controle de fora para ser feliz e estar apta a brincar ou trabalhar” (ibid., p. 259).

Água pra todo lado

Pensar sobre essa cena e todas as outras de pedagogia amorosa entre um pai e seus filhos nos ajuda a compreender um dilema filosófico importante. Como indivíduos modernos, atravessados pela moral burguesa e por valores liberais, temos desconfiado cada vez mais de qualquer tipo de tutela, qualquer tipo de outro que se arrogue saber o nosso bem. O velho bordão “faço isso por seu bem” nunca foi tão atacado quanto agora, num tempo no qual tememos privar a criança de sua autonomia.

O dilema está no fato de que todos os nossos valores são transmitidos, mesmo esse ligado à moral burguesa, defensora da liberdade individual. Também faz parte dessa moral a ideia de que só somos livres numa sociedade em que certos valores são compartilhados e respeitados. É isso o que a cena me causou: o pai parecia bem intencionado ao educar a filha, mas me pareceu excessivo. Não há solução fácil para esse tipo de pedagogia. As fronteiras entre a dominação e o ensino são sempre movediças. A solução está – ainda obedecendo à tal moral burguesa – em manter espaços públicos de discussão sobre como educar, como reavaliar limites.
Os frios píncaros do desafeto e a suposta liberdade ali encontrada não valem o sorriso da menininha que, mesmo sobre as críticas do pai, insistia em jogar água pra todo lado. Não estamos longe dos dilemas morais que irão se desenrolar a partir daqui: a distinção entre a demanda que endereçamos ao outro e o desejo que temos de fazê-lo se submeter ao nosso desejo. Não me parece possível retirar a carga sádica da crença “se você não faz isso por mim é porque você não me ama”… Ora, demandar algo do outro – que pare de espirrar água, que ele pare com aquela mania que nos incomoda, que ele pare de fazer o que nos obriga a renunciar a ele etc… – implica, sempre, em aceitar que o outro pode recusar. Entender que isso não é desamor, mas prática conjunta de liberdade é o que podemos chamar exercício ético dos contratos amorosos.

[1]Psicólogo, Mestre em Teoria Psicanalítica e Doutor em Estudos Literários (UFMG). Professor Adjunto I de Psicanálise e Relações Objetais, no Departamento de Psicologia, da UFMG. www.fabiobelo.com.br
[2] Poema datado de 1-11-1930. In Pessoa, Fernando. Odes de Ricardo Reis. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994), p. 126.
[3]BELO, F. R. R. . Os efeitos da violência na constituição do sujeito psíquico: uma análise de Cidade de Deus. Psyche (São Paulo), São Paulo, v. VIII, n.14, p. 77-94, 2004.
[4]Winnicott, D.W. Aspectos da delinqüência juvenil. In. A criança e seu mundo. Trad. Álvaro Cabral. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, pp. 256-261.

Esse texto está publicado no livro:

http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3641

Há algum tempo, concedi entrevista à TV Justiça sobre a adoção por casais homoafetivos. O documentário ficou muito bem feito e didático. Parabéns ao pessoal da TV Justiça.

A Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre o custo de ter um filho hoje e outra sobre o desejo de um pai assumir sozinho seu bebê e o direito de ter mais licença paternidade por isso.

* * *

Há duas grandes injunções ao pai contemporâneo: prover bem e estar presente afetivamente. Não basta mais o papel antigo de provedor apenas. Garantir a existência é o básico. O que a primeira matéria mostra é que isso não basta. Bem ao espírito do capitalismo, ao tratar a relação pai-filho como investimento em capital humano, fica claro que o papel do pai é investir alto no rebento em todos os níveis. Na tabela que conclui a reportagem fica claro que o investimento em lazer está presente em todas as classes. Suponho que aqui já estamos falando também da presença afetiva do pai.

(A matéria deixa bem claro que o investimento é dos pais. Não estou me esquecendo também que boa parte das famílias brasileiras tem a mulher como núcleo financeiro da casa. O que quero apontar é para um tipo ideal do pai da classe média – a classe C, da tabela da reportagem).

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A segunda reportagem mostra o caso de um pai que resolve cuidar de seu bebê sem a presença da mãe. A Justiça, acertadamente, concede a ele a licença-paternidade estendida, de mesma duração das garantidas às mães. Esse caso talvez seja também um daqueles casos “fora da curva” que servem para mostrar um fenômeno social que existe de forma mais abrandada no dia a dia. O pai é convocado a assumir funções afetivas – o cuidado cotidiano do bebê – que antes estavam restritas à mãe e às mulheres.

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Num livro escrito entre os anos de 1957 e 1964, Winnicott publica um pequeno artigo chamado “E o pai?”. Os dois primeiros parágrafos descrevem como as mães devem permitir que os pais de seus bebês se aproximem, tenham contato com seus próprios filhos. Eis o segundo parágrafo:

Eu sei que alguns pais são tímidos a respeito de seus bebês, no princípio, e sem dúvida também nunca se conseguirá que alguns se interessem por crianças; mas, de qualquer modo, as mães podem levar os maridos a ajudarem em pequenas coisas e podem organizar suas tarefas de modo que o bebê seja banhado quando o pai estiver em casa para assistir e até participar, se quiser. Como eu disse acima, tudo depende bastante daquilo que a mãe decidir. (A Criança e Seu Mundo, p. 127-8).

Reparem bem no tom que Winnicott se refere ao pai: é uma família típica inglesa cujo pai chega do trabalho e “se quiser”, “se a mãe decidir”, pode ajudar a dar banho no bebê. Um pouco mais adiante, o autor argumenta que o pai é valioso “para ajudar a mãe a sentir-se bem em seu corpo e feliz em seu espírito” (p. 129). Além disso, o pai deve dar apoio moral à mãe, “ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mãe implanta na vida da criança” (p. 129). O terceiro ponto é a presença positiva do pai que vai permitir que a criança consinta que o pai se converta numa pessoa importante em sua vida.

Winnicott termina o texto ainda insistindo no poder da mãe:

Assim, se o seu marido estiver em casa, você verificará facilmente que vale a pena esforçar-se para ajudá-lo e às crianças a conhecerem-se mutuamente. Não está em suas mãos tornar férteis as relações deles; isso depende do pai e das crianças. Mas está verdadeiramente em seu âmbito possibilitar essas relações, ou impedi-las, ou desfigurá-las. (p. 133).

Em que pese certo naturalismo na teoria winnicottiana – a mãe estar naturalmente preparada para a maternagem e o pai nem tanto – fica também evidente que “depende do pai” querer estar com seu bebê e cuidar dele. Da mesma forma, sabemos bem, Winnicott foi um dos autores da psicanálise que mais bem desconstruiu a imagem de uma mãe naturalmente pronta para ser mãe.

Interessa pensar naquilo que Winnicott chamou de capacidade de se preocupar (concern) como algo não exclusivo das mulheres ou das mães, mas uma capacidade psíquica geral de desejar cuidar de alguém de uma forma específica. Um pai suficientemente bom é também aquele capaz de se preocupar dessa forma: identificando-se com seu bebê, cuidando dele empaticamente, brincando com ele num espaço criado em conjunto com ele, um espaço transicional. Esse pai certamente não precisa da autorização de ninguém – assim como a mãe também não deve precisar – para poder amar o seu bebê dessa forma.

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Cumprir o ideal burguês contemporâneo – investir pesadamente nos filhos como capital humano – implica em trabalhar fora de casa, distante da tarefa amorosa (e não ou mal remunerada, de maneira geral) do cuidado. Saber e poder balancear essas duas tarefas é o trabalho de paternidade nos tempos contemporâneos.

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Quando, muito tempo depois, ele soube que Albertina morava então comigo, compreendendo que eu a escondera de toda a gente, declarou que via afinal o motivo por que, naquela época da minha vida, eu não queria nunca sair de casa. Enganou-se. Era aliás perfeitamente desculpável, pois a própria realidade, não obstante necessária, não é completamente previsível. Os que vêm a conhecer algum detalhe exato da vida alheia tiram logo consequências que não o são, e veem no fato recém-descoberto a explicação de coisas que precisamente não têm nenhuma relação com ele.” (Proust, A prisioneira, 1981, p. 1).

Começo essa reflexão psicanalítica sobre a fofoca com essa citação de Proust. A partir dela, uma hipótese fundamental: a fofoca nasce da fantasia oriunda da onipotência infantil de conhecer – e dar a conhecer – a vida alheia. Saber da vida dos outros, invadir a privacidade: esse é um dos desejos que sustentam a fofoca.

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Dobra da projeção, paranoia projetada: o fofoqueiro imagina saber o que se passa na vida do outro (assim como o paranoico imagina que os outros sabem o que vai dentro de si).

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“Ao que às ocultas calunia ao seu próximo, a este destruirei” (Sl., 101: 5). A tradição judaica está repleta de advertências contra a fofoca. A punição é radical, como mostra esse versículo. Isso porque a fofoca tem um efeito altamente desagregador no laço social – algo a ser protegido também de forma radical dentro dessa tradição.

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Fazendo pesquisa para imagens no Google para “fofoca” aparecem, em sua maioria, mulheres fofocando. Antes de qualquer conclusão sobre o machismo, uma hipótese: a fofoca é também um dizer às ocultas, dizer do oprimido, a fala que não pode ser pública. Ali onde poderíamos ver a incontinência das mulheres, podemos ver, antes, um modo de resistência. Diante da milenar proibição à palavra pública, sobra o recurso à palavra escondida.

Claro, esse recurso está longe de ser político, de ter essa face de resistência sempre explícita. Nos romances, nos contos de fada, no dia a dia, o motivo da fofoca, de forma geral, é sempre uma ninharia, sempre um nada: a cor do vestido, o cabelo, um modo de se comportar. Pequenos detalhes vis elevados à máxima importância.

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Há a fofoca sádica, aquela que visa denegrir, “aumenta um ponto” no conto inventado para destruir o outro. Impossível não trazer a inveja como parceira da fofoca. A inveja, tal como Melanie Klein a conceituou: o ódio dirigido ao outro, que visa envenená-lo de todas as formas, destruí-lo. A fofoca é uma arma de destruição do outro dentro do laço social. O fofoqueiro produz uma imagem do outro que visa tornar impossível qualquer redescrição, qualquer nova percepção que possamos ter de seu alvo.

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Pensem na alienação parental tal como vista nos tribunais como um modelo da fofoca. Ali, sua fonte edípica explícita. A fofoca só pode se estabelecer nesse triângulo: um dos vértices denigre outro para um terceiro. Essa estrutura triangular, sabemos, é a base do Édipo. Estaria aí também uma das fontes do desejo de fofocar? A alegria de um dos pais em denegrir o outro para o bebê de tal forma a ter somente para si o amor do filho? O fofoqueiro não quer apenas denegrir o outro, quer construir para si uma imagem idealizada, sem falhas.

A alienação pensada enquanto relato metonímico (uma pequena ação do outro tomada como verdade plena da identidade do outro) ou a pura invenção mentirosa do que o outro faz e é. O objetivo sádico desse tipo de discurso é mais evidente: trata-se de tirar o filho do outro, golpe narcísico sem precedentes, arrancar do outro aquilo que, na maioria dos casos, ele (a) tem de mais valioso.

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Em que medida uma sessão de análise pode se aproximar da fofoca? Qual é a posição do analista que desfaz o triângulo da fofoca? Por que “falar dos outros” em análise deve ser, de certa forma, neutralizado pelo analista?

“Quando João fala de Pedro fala mais de João que de Pedro mesmo”: lição básica de suspeita. O que João quer falar de si mesmo quando fala de Pedro? Apontar o caráter projetivo de nossa percepção é um recurso contra a fofoca.

E quais as diferenças entre falar “mal” do outro e julgar o outro, reconhecer, em análise, os posicionamentos morais de cada objeto de amor que nos circunda? Matizar o julgamento moral e seu endereçamento ao terceiro: é esse exercício que a fofoca coloca em prática na análise. Ou seja, não se trata de proibir nossas conversas sobre terceiros ausentes. É fundamental haver espaço de privacidade no qual possamos conversar sobre um terceiro com alguém de confiança. Julgamentos morais complexos quase nunca se constroem em conversas solitárias. A questão está em tornar essa conversa como condição para incremento de conversas com esse terceiro que foi alvo de investigação ou crítica.

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No vídeo acima, o poeta Ricardo Aleixo, lê sua “Lira Maldizente”. Pensem na fofoca agora dentro de um campo profissional. “Em lugar de críticas, obituário”: no caso da academia, as “críticas” muitas vezes são feitas nos corredores, nos gabinetes, à boca pequena, por assim dizer… Na verdade, evitam o espaço público: seja para a manutenção de uma cordialidade conivente, seja para evitar o debate aberto. A fofoca do homo academicus (cf. Bourdieu) está a serviço do que podemos chamar “narcisismo esotérico”: o sujeito para defender sua teoria denigre as outras, imagina que sua teoria é apenas para os “iniciados”, aqueles que não aderem a ela são ignorantes e incapazes… Percebam que essa lógica pode ser usada para entender a fofoca como um todo: quanto mais frágil o espaço público de discussão, quanto menos ele é legitimado, quanto mais a crítica é confundida com ofensa, mais espaço temos para a fofoca, mais a crítica se transforma em maledicência.

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A fofoca é um tipo de fascismo com roupas de alerta generoso. A fofoca, por definição, retira do terceiro, alvo da fofoca, o direito à ampla defesa, à escuta e à ampliação de contexto para melhor compreensão dos fatos narrados. A fofoca é totalitária quando impõe uma versão dos fatos e quando retira do campo de julgamento moral o réu, o objeto, em questão.

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Para facilitar, um post único com os links sempre atualizados onde os livros abaixo podem ser encontrados em formato digital ou impresso (POD – print on demand).

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Já escrevi uma resenha desse livro que acaba de ganhar sua segunda edição – agora digital. Quero, no entanto, voltar a recomendá-lo aqui. Lúcio Marzagão consegue algo notável nesse romance. Ele nos transporta aos últimos momentos de vida de Freud, momentos de dor intensa, de sofrimento, mas ainda de reflexão, de paixão pela psicanálise. De forma ficcional, mas a partir de um imenso trabalho de pesquisa sobre esses últimos anos de Freud, Lúcio nos dá um panorama que vale apreciar com cautela. Aprendemos muito sobre psicanálise ouvindo esse Freud ficcional, mas que respeita profundamente o pensamento do inventor da psicanálise.

À venda na Amazon, em formato digital.

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A Psicanálise do Olhar

Tive a sorte, há já 10 anos atrás, de ser professor de Liliane Camargos. Professor substituto, ainda muito inexperiente. Eis que essa aluna me impõe uma tarefa: “professor, não posso enxergar direito o que você escreve no quadro. Me diga aí o que o você está fazendo”. Eu, que gosto tanto de escrever no quadro, de fazer esquemas… como traduzir isso? Pois, tive que aprender a ver diferente. Aprender a olhar com outros olhos.

Passou o tempo, Liliane escreveu essa pérola em forma de dissertação de mestrado, na UFMG. Tive a honra de escrever o prefácio desse texto que sai hoje em formato digital.

O leitor interessado na psicanálise do olhar, a pulsão escópica, o ver e o ser visto, tem aqui uma obra de referência. Como disse no prefácio, sinto que a teoria psicanalítica se moveu aqui. Desses movimentos teóricos onde a crítica ao texto é a um só tempo desconstrução e renovação. Algo raro e precioso. Se Liliane me ensinou a pensar no olhar diferente na prática, nesse livro, ela dá uma aula sobre como pensá-lo a partir da psicanálise.

O livro está à venda, em formato digital, na Amazon, com preço muito acessível. Confiram e divulguem esse trabalho. Merece mesmo.

Se você quer o livro impresso, ele está à venda na Livraria da Travessa.

Fazia supervisão clínica com o Prof. Lúcio Marzagão quando ele me convidou para escrever um livro em co-autoria. Na época, fazia mestrado sob orientação do Prof. Paulo de Carvalho Ribeiro. A ideia inicial era fazer interpretações literárias – sob a forma de literatura – de contos consagrados; a interpretação propriamente psicanalítica; e um glossário com conceitos básicos de psicanálise. Dessa forma, Lúcio selecionou seis contos:

  • O Relógio de Ouro, de Machado de Assis.
  • A Caolha, de Júlia Lopes de Almeida.
  • O Homem que Precisava ter Ciúmes, de Menotti Del Pichia.
  • A Mulher que Passou, de Guido de Verona.
  • O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe.
  • Duas Mães, de Miguel de Unamuno.

Todos os contos estão presentes na íntegra na primeira e nessa segunda edição do livro.

O trabalho, ao longo de 1999 e 2001, rendeu boas conversas entre os autores. Lúcio fez os textos literários, Paulo as interpretações psicanalíticas que se seguem a cada um desses contos e eu pelo glossário de conceitos que serve de Apêndice ao livro.

Sobre esse pequeno dicionário, há algo curioso. Fiz várias entrevistas com Lúcio e as gravava em fica cassete. Foram mais de 30 fitas de 1h30 cada… Quis dar ao vocabulário o tom informal que Lúcio tanto preza. De toda forma, ele me pedia para “academicizar” mais o texto, o que tentei fazer também.

Quanto aos textos do Prof. Paulo César, produziam-me os mesmos intensos sentimentos despertados em suas aulas e na orientação de mestrado. Sentia que a psicanálise era ensinada por ele com o mesmo vigor radical dos textos de Freud. Há nos textos de Paulo algo da ordem de um desnudamento do inconsciente, da revelação do sexual, raramente visto nos textos de psicanálise. Desde o período no mestrado, mas também ao longo de todos esses anos nos quais venho acompanhando o trabalho do Prof. Paulo, tento seguir seus passos nessa tarefa copernicana, teorica e clinicamente.

Os textos de Lúcio são também inspiradores. Ele faz os personagens dos contos ganharem uma sobrevida… Voltam para continuar a história… Outras perspectivas se descortinam. Se os textos de Paulo causam-me a sensação de retirada dos véus, os de Lúcio me dão a impressão de sutileza… É como se um véu fosse colocado sob um ponto para o qual gostaríamos de chamar mais a atenção. Não revela, mas releva, revira. Dos preciosos anos de supervisão clínica que tive com Lúcio, essa foi uma das lições mais importantes que guardei. Pra revelar algumas coisas da ordem do inconsciente, é preciso sutileza e invenção poética. Através do Prof. Lúcio aprendi a amar o pragmatismo, essa filosofia que ensina a importância de redescrever as coisas, pensar em outros modos de dizer.

A primeira edição, de 2001, esgotou-se rapidamente. Finalmente, onze anos depois, com a facilidade da edição digital, decidimos reeditá-lo. Discutimos bastante se iríamos ou não corrigir alguma coisa no texto para além da revisão ortográfica ou mais técnica. Reli o vocabulário e senti vontade de mexer em várias coisas: ampliar, tirar, corrigir. Na verdade, isso redundaria em escrever um novo livro. É óbvio que um percurso intelectual de 11 anos produz mudanças. Seria trágico se não fosse assim. Enfim, decidimos por deixar como veio à luz o livrinho. E combinamos, claro, de escrever mais livros para dirimir o desejo de dizer novas coisas, redescrever o que dissemos, revelar de outros modos, o que tentamos nesses textos.

Na época e ainda hoje me sinto privilegiado de ter participado desse projeto. Sou imensamente grato aos dois professores pelo acolhimento nesse e em outros projetos conjuntos.

Então, fica o convite a todos para conversarmos sobre esse livro. Agora, no formato digital, espero que ele possa alçar voos mais amplos e alcançar mais leitores, mais pessoas dispostas à interlocução entre a psicanálise e a literatura.

O livro em formato digital está à venda na Amazon.

Se você quiser o livro em formato impresso, ele pode ser solicitado na Livraria da Travessa.

Em tempo: parabéns à editora, Noga Sklar, que fez um trabalho muito bacana e tem uma política de preços acessíveis. Acredito e apoio essa ideia. Que a KBR também alce alto voo!