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Numa análise, uma das coisas mais importantes que o neurótico obsessivo pode atingir é o reconhecimento de sua impotência. De maneira geral, o obsessivo é aquele que acredita tudo-poder, tudo-saber. Sua obsessão por organizar o mundo, dar sentido fixo às coisas, é sinal dessa onipotência de várias faces.

Giorgio Agamben recupera de forma exemplar a teoria da potência de Aristóteles para nos ensinar que só sabemos efetivamente de nossa potência quando podemos, efetivamente, poder não fazer. O exemplo é simples: o fogo pode apenas queimar. Ele não pode não poder queimar. Assim também é com a maior parte dos animais: podem apenas fazer o que determina sua potência particular: uma formiga não pode não-poder-fazer seus buracos na terra…

Nulla rende tanto poveri e cosí poco liberi come questa estraniazione dell’impotenza. Colui che è separato da ciò che può fare, può, tuttavia, ancora resistere, può ancora non fare. Colui che è separato dalla propria impotenza perde invece, innanzitutto, la capacità di resistere. E como è soltanto la bruciante consapevolezza di ciò che non possiamo essere a garantire la verità di ciò che siamo, cosí è solo la lucida visione di ciò che non possiamo o possiamo non fare a dar consistenza al nostro agire. (Nudità, p. 69-70)

Traduzindo, rapidamente: nada torna tão pobre e tão pouco livre como esse desconhecimento da impotência. Aquele que é separado daquilo que pode fazer, pode, entretanto, ainda resistir, pode ainda não fazer. Aquele que é separado da própria impotência perde, por sua vez, antes de tudo, a capacidade de resistir. E como é apenas o irritante [incendiário...] reconhecimento daquilo que não podemos ser que garante a verdade do que somos, também é só a lúcida visão daquilo que não podemos ou podemos não fazer a que dá consistência ao nosso agir.

Ora, o que Agamben, via Aristóteles, está tentando demonstrar é que alguém compelido ao fazer, que não consegue se distanciar do que faz, é pobre em liberdade. Nossa liberdade é sempre marcada por esse negativo de não poder fazer. Isso é como eleger Bartleby como um modelo literário dessa liberdade: preferir não fazer, como faz o personagem de Melville, é o início de toda liberdade possível. Na neurose obsessiva, preferir não fazer, finalmente, poder não-poder, é uma libertação.

Obviamente, não se trata de ir até onde Bartleby foi. Poder inclusive não-poder viver… A literatura, mais uma vez, mostra o que está em jogo, de forma muito radical: a vida, como um todo, é determinada por esse distanciamento de nossa potência. Reconhecer essa impotência, poder não fazer, vale para todas as tarefas da vida, inclusive para o próprio viver.

A compulsão do obsessivo – “ter que fazer”, “não poder não fazer” – acaba por transformar a pulsão num tipo de instinto. Aquilo que caracteriza a liberdade pulsional – poder ser e fazer sempre mantida a possibilidade de poder não ser e não fazer – é recusado pelo obsessivo. Ao longo de seu processo analítico, o que se busca é justamente um pouco mais de espaço para o reconhecimento dessa impotência que se confunde com a liberdade.

A liberdade pulsional, no limite, autoriza a plena contingência do que somos e fazemos. Humanos podemos matar crianças e adotar bebês na mesma proporção. Podemos fazer arte e guerra: ao mesmo tempo… Podemos prolongar a vida ou simplesmente suspendê-la. Pensemos na morte que desejamos e na que desejamos evitar.

Não seria também, no fundo, contra um terrível desejo de morte, que tudo desorganiza e confunde, que o obsessivo luta? Não seria por esse motivo sua compulsão a controlar a vida, no sentido de manter a vida viva, mais que vivê-la, de forma menos onipotente? O obsessivo é um Bartleby que luta contra esse desejo final de poder não ter que viver.

Lição expandida para todos: a vida que temos não tem que ser vivida necessariamente. Se esse pensamento, inevitavelmente, traz a sombra terrível do auto-extermínio, precisamos dele, no entanto, para mudarmos de vida, escolher outros caminhos. E só conseguimos mudar quando conseguimos reconhecer que não precisamos, que não somos obrigados, a continuar a viver como vivemos. Que há sim possibilidades – duramente conquistadas, fruto de muita elaboração psíquica – de poder não fazer, de poder não viver algumas formas de vida e de se autorizar, também no limite, a poder não saber o que nos espera.