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respect

 

CONTÉM SPOILER!!

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O filme “Respect” mostra-nos a história de uma das maiores cantoras de todos os tempos. Conhecer a história de Aretha Franklin é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre o abuso sexual infantil, a violência contra a mulher negra e sobre a capacidade de reparação.

Aretha é abusada sexualmente, dentro de casa. Há dúvidas sobre o abusador. O mais provável é que tenha sido um músico amigo da família protestante. Aretha tinha 12 anos e seu abusador 24. O pai talvez não tenha abusado genitalmente da filha, mas certamente abusava moralmente – dominava, mandava, humilhava, batia.

O filme mostra a luta de uma mulher contra a violência patriarcal, contra a misoginia e o machismo. O fato de ser uma mulher negra e viver nos EUA dos anos 60 torna essa luta ainda mais aguda. Vemos no filme a notícia de Angela Davis sendo presa por terrorismo.

O que impressiona não é apenas a luta de Aretha contra o pai e o primeiro marido que também a espancava e dominava. O filme mostra a força incomensurável da voz de Aretha. Dos cantos gospel na igreja do pai aos palcos de jazz e soul, Aretha simplesmente brilhava. Manter-se ativa e engajada tanto na arte quanto na luta social contra o racismo é o que impressiona.

Na cova dos leões machos, não há deus que possa proteger uma mulher de algum dilaceramento. Mesmo no auge do poder, sendo uma das divas do soul, Aretha não se via livre das garras do racismo e do machismo.

Há também, muito bem retratado no filme, a reação de Aretha. Ora agredindo-se, por meio do consumo abusivo de álcool, ora agredindo aquelas e aqueles que lhe eram próximos. O amor – a si mesma e ao outro – era sempre um afeto tenebroso e nada confiável.

O papel da religião desempenhou, obviamente, um dos veículos para a simbolização (sublimação / inspiração) de tanta passividade. Arte e religião se articulavam nos magníficos louvores que entoava, traduzindo suas dores.

O longo processo de reparação de feridas incuráveis parece ter chegado a bom termo. A sensação que temos, ao final do filme, é de espanto: como ela pôde suportar tanta dor? Como ser capaz de continuar ofertando algo tão bonito quanto sua voz ao outro que sempre lhe destruía?

Um dos mecanismos utilizados por ela é certamente a identificação com o agressor. Tal como fizeram com ela, Aretha é agressiva com quem está perto, xinga e humilha. Mesmo assim, é importante dizer, sua violência por mais que ecoe as agressões sofridas nem de longe têm a mesma virulência.

Numa das cenas de auto-destruição, completamente embriagada, Aretha alucina a mãe – falecida quando a menina tinha 10 anos apenas – que lhe acaricia o rosto e canta para ela ao piano, como fazia antes. Talvez esses momentos de carinho e acolhimento – que também havia na igreja e com amigas e amigos – foram material suficiente para confiar no outro ainda.

O nome do filme não poderia ser mais apropriado: respeito é a base de tudo, esse olhar cuidadoso em direção ao outro. E é um achado e tanto que seu apelido “ree” seja entoado muitas vezes na música, introduzindo a força da palavra “respect”.

Recomendo o filme. Ajuda-nos a pensar sobre a força misteriosa da sublimação e mantém viva a esperança – religiosa ou não – de que os mais fracos podem sobrepujar o mal.

O filme “Por que você não chora?”, dirigido por Cibele Amaral (2021), entra na estante dos indispensáveis para a formação em psicologia clínica. O filme narra a história do encontro entre uma paciente borderline e uma estagiária em psicologia. A princípio, o espectador é levado a crer que o filme será sobre o percurso errante da paciente borderline, aliás, interpretada de forma muito boa por Bárbara Paz. Sem dúvida, o espectador terá uma visão bem didática dos principais aspectos desse tipo de sofrimento psíquico e a extrema dificuldade no estabelecimento da relação terapêutica com a paciente. No entanto, o filme vai se desenrolando e nossa atenção se volta para Jéssica, a estagiária, em final de curso de Psicologia, interpretada de forma brilhante por Carolina Monte Rosa. A advertência da professora para que Jéssica fizesse análise ou acompanhamento terapêutico é um dos mantras que repetimos nas supervisões clínicas. Caso você queira atender alguém, cuidar de alguém, você deve, antes e prioritariamente, cuidar de você mesmo, submeter-se à análise e/ou à psicoterapia. Isso é indispensável, pois uma pressuposição básica da clínica é que o sujeito não pode conhecer-se a si mesmo sem o auxílio do outro. Somos dominados por nosso inconsciente e precisamos do outro para que ele nos aponte aquilo que não conseguimos – porque não desejamos e não toleramos – ver em nós mesmos. Não vou falar sobre o final do filme, mas a advertência ganhará todo seu valor no desfecho. Em que pese o caráter um tanto didático do filme, recomendo-o enfaticamente a todas as pessoas que querem trilhar o caminho da clínica.

 

chora

literatura
Pessoal, retomando uma de minhas linhas de pesquisa prediletas, vou fazer uma playlist no canal sobre “Psicanálise e literatura”.
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O cronograma inicial tá aqui:
Alguma sugestão de obra literária? Vamos conversar!

golppista

 

Patricia Highsmith, num dos livros dedicado ao seu personagem mais famoso, desenha o que me parece ser uma das fantasias fundamentais da perversão. Ripley, o personagem, quer mostrar que todos nós somos perversos; que todos temos desejos macabros e inconfessáveis; que não há relação amorosa verdadeira, mas apenas interesse egoísta, abuso e alienação. O perverso tem horror à intimidade e acredita que a confiança é apenas um tipo de ingenuidade exagerada.

O desenho feito por Highsmith pode ser visto didaticamente no documentário “O Golpista do Tinder” (The Tinder Swindler), a partir das armações de Shimon Hayut ou Lev Leviev (muitos nomes, para múltiplos golpes). Leviev conhece mulheres no Tinder. Ele se apresenta como agente secreto do exército israelense ou como um bilionário do ramo dos diamantes. Seduz com viagens, presentes e muito, muito romantismo gentil e dedicado. Quando suas vítimas estão plenamente apaixonadas, ele começa a mirabolar histórias: perseguições, tentativas de assassinato e, principalmente, a impossibilidade de usar seus cartões de crédito. Ora, por que não emprestar alguns milhares de dólares para alguém que já te mostrou ter milhões? Que te levou para passear em seu avião particular e para jantar nos hotéis mais caros da Europa? É uma questão de tempo e suas apaixonadas parceiras começam a se endividar de forma astronômica.

Pois bem, uma das primeiras reações, praticamente inevitável, é julgar e condenar a vítima. “O golpe tá aí, cai quem quer”: um lema recente do “jeitinho brasileiro”, uma das sociedades mais brutais e perversas do Ocidente. O elogio ao perverso – a inteligência, a frieza de Hayut – é diretamente proporcional à continuidade da violência contra as vítimas: quanta ingenuidade! É justamente aí, diante do automático, que devemos nos deter e desconfiar, fazendo dialogar a sociologia e a psicanálise: quem é que quer que pensemos isso? Por que interpretamos o mundo assim de maneira tão fácil?

Hayut é um criminoso. Ponto. Deixo aos juristas a nomeação específica: estelionato, roubo, dano moral… ele deve infligir vários artigos do código penal… Do ponto vista psicanalítico, interessa dizer que é um perverso, um criminoso que seduz para roubar e depois culpar a vítima. A reação que temos ao ver o filme ainda é parte da fantasia geral de Hayut: vejam como são ingênuas, vejam como são cegas… e, vejam, como não podemos confiar em ninguém. O desejo máximo do perverso, insisto, é implodir a confiança, rir da intimidade.

O cartaz que circula para a propaganda do filme – figura acima – reforça a imagem que o patriarcado perverso quer impor às vítimas: elas são tão estúpidas quanto peixes fisgadas pelo anzol. O ideal de riqueza representado pelo diamante também reforça o estereótipo praticamente indestrutível: somos todos interesseiros, egoístas. O capitalismo cria o ambiente perfeito para esse tipo de crime. Mais que nunca, dinheiro é libido.

Infelizmente, o documentário deixa esse gosto amargo: é preciso mesmo ensinar, desde cedo, a não confiar em ninguém. Registre tudo por escrito, guarde suas conversas no Whatsapp: isso pode dar um filme. Para não decretar a vitória do perverso, o mais importante é mostrar os matizes do encontro humano. Sim, o outro pode nos escravizar, explorar, abusar, violentar, enganar, trair… mas o outro também é fonte de alegria, amor, partilha, cuidado, solidariedade… O perverso fará de tudo para pintar o bem como mera ilusão, como transitória. O perverso ama idealizar uma tal natureza humana como, no fundo, imutável e instintiva: uns são peixe, outros pescadores. O perverso ama a metonímia, pegar um pedacinho da história humana e tratar como o todo, o verdadeiro. O excesso e a exceção são as cenas prediletas do perverso: o homem que trai, o assassino, o fascismo… tudo isso é prova incontestável da natureza humana e todos que neguem isso são apenas ingênuos que merecem ser enganados para deixar de ser bobo.

O filme, no entanto, acontece graças à solidariedade das vítimas expondo os crimes de Hayut. O que é espantoso, ao final, é ver que o trambiqueiro continua não apenas livre, mas riquíssimo e acompanhado por uma linda modelo israelense. Da mesma forma, é espantoso que as vítimas ainda continuem devendo milhares de dólares, se as autoridades sabem quem é o criminoso, com provas abundantes. O gosto amargo permanece: o crime compensa, afinal. E é o que temos vivido sob o capitalismo de forma geral: quanto mais rico, mais homem, mais branco, menos você será punido, não importa o que você faça. A perversão não é apenas a de um sujeito particular, mas também estrutural. Estrutura que favorece explicitamente alguns grupos em detrimento de outros.

Há ainda muito a se pensar sobre o caso. A mãe de Hayut aparece de forma brevíssima e parece odiar o filho: diz não ter nada a ver com ele e que ele mudou de nome. Nem sinal do pai. Esperemos que isso não traga de volta as teorias perigosas – e um tanto machistas – de que a perversão é a falta do nome do pai… Sejamos explícitos: o patriarcado e seu mito da mulher que encontra seu príncipe é o motor dessa história.

Sim, é preciso ter cuidado ao se conhecer alguém. O amor maduro tem a paciência como virtude. Conhecer o outro leva muito, muito tempo. Intimidade não se constrói imediatamente. Confiança é algo que se desenvolve aos poucos. E não estamos no campo da perversão se mantemos sempre o cuidado sobre os efeitos do desejo do outro sobre nós. Ora, o outro pode inclusive desejar coisas legítimas, sem violência, e isso não combinar com o que queremos para uma relação. Aprender a ouvir seus limites, o que te faz gozar com o outro, não é aceitar que não há amor… ao contrário: é mostrar que o amor é um trabalho, um tipo de brincar compartilhado muito sofisticado. E é claro que devemos aprender a ler os sinais do mal. O mal existe, o perverso existe, o sadismo, a violência, o desejo de explorar e matar: tudo isso existe. Ripley, Hayut e os perversos se recusam, no entanto, a acreditar que há defesas eficientes contra esses desejos infantis e perversos. O fato de tais desejos existirem em todos nós não significa que todos queiramos realizá-los, que gozemos com isso. Ao contrário: a maioria reivindica seus ganhos narcísicos a partir da renúncia à perversão infantil. A maioria parece reconhecer que é muito mais prazeroso e vivo cuidar e ser cuidado, proteger e ser protegido, amar e ser amado. Isso quer dizer que não devemos estar preparado para o aparecimento do pulsional, da sexualidade infantil – a nossa e a do outro? Ao contrário! Aceder a um amor mais maduro nos torna mais preparados para manejar as nossas perversões e as do outro quando elas aparecerem.

 

 

blue jay
“Blue Jay”, dirigido por Alex Lehmann, pode ser visto como uma alegoria sobre a relação entre a culpa e a reparação.
24 anos depois, Jim e Amanda se reencontram e relembram os tempos de adolescência quando eram namorados.
A morte da mãe leva Jim de volta à cidade natal para arrumar sua casa de infância. A mãe guardava todos os objetos do jovem Jim: roupas, diários, antigas gravações e uma carta de amor não entregue a Amanda.
Amanda, por sua vez, volta à cidade para visitar a irmã. Casada, Amanda atravessa uma fase deprimida. Apesar de ter cumprido todo o protocolo de uma vida bem-sucedida.
O tempo do filme é o transcorrer do fim da tarde até o amanhacer do dia seguinte. Durante a noite, o casal reouve as músicas, reconta as histórias, reabrem as feridas. A imersão no passado possibilita a Jim e Amanda conversarem sobre o trauma que os separaram.
A metáfora da carta guardada e jamais entregue é um clichê, mas muito didática para se compreender o peso da culpa.
Parte do tormento do luto proveniente do fim das relações amorosas é a sensação de que não conseguimos dizer tudo, de que ficamos para sempre sem a resposta do outro. Um resto não-dito, um desentendimento incômodo, espinho na carne.
Novos demais para lidar com o traumático, o casal se separou, mas se manteve junto nesse tipo de universo paralelo dominado pelo pretérito imperfeito do subjuntivo ou futuro do pretérito do indicativo disparado pelo luto. E se eu tivesse dito? E se eu tivesse feito? Eu faria diferente… eu não deveria ter feito…
A carta finalmente chega à destinatária. A palavra faz seu trabalho de dar contorno à dor, de torná-la possível, consciente, compartilhada. Mais uma vez o universo paralelo: por que você não mandou essa carta? A gente teria sido tão feliz se nossas escolhas tivessem sido outras…
Jim e Amanda viveram, cada um a seu modo, a dor melancólica de um luto que não foi compartilhado. O reencontro dos dois é uma redenção quando abre a possibilidade de reparação. Dizer o que não foi dito, compreender, tanto tempo depois, as razões um do outro. A reparação abre caminho para perdoar a si mesmo e ao outro. A culpa – esse tipo de auto-espancamento interno que não traz alívio, nem redenção – finalmente pode cessar.
É diante do irremediável, do imutável, do que não tem volta, é diante disso que o perdão é convocado. O perdão – insisto: dirigido a si próprio e ao outro – é uma forma de compreender o sentido do mal para contorná-lo e dar a ele um lugar. O perdão desfaz a operação metonímica da culpa que faz do erro o todo do sujeito. O perdão situa o erro como parte de um jogo mais complexo.
Vamos, muitas vezes, à análise, nos libertar de um peso do passado, um mal que cometemos ou sofremos que permanece longamente presente, aprisionando-nos nessa cápsula do tempo, a fixação do que não pôde ser dito e compreendido.
A maioria de nós não terá a sorte de Jim e Amanda. A indiferença mútua que os casais separados dedicam um ao outro, paradoxalmente, leva o casal a manter-se unido no campo da fantasia do que poderia ter sido. Para sempre presos um ao outro pelo que poderiam ter feito, pelo que deveria ter sido dito. A culpa é uma forma de não seguir adiante, de não se separar jamais. O perdão e a reparação são as maneiras de compreender que as marcas do outro estarão sempre ali, mas que não precisam ter a mesma intensidade dolorosa ou o funcionamento metonímico que desejam impor.
A transferência é, nos casos menos afortunados, a única possibilidade de revisitar as relações encruadas no ódio, na culpa e no ressentimento. Elaborar a culpa é, finalmente, compreender que não são mais necessárias cartas, explicações e tentativas infinitas de dar sentido ao desencontro.
Admitir que somos conduzidos por forças inconscientes, que não somos obrigados a saber lidar com desejo, que vamos sempre, aliás, ter que fazer e refazer os sentidos do que o desejo quer de nós: isso é parte das condições de possibilidade da reparação do erro do passado – sem modificar aquilo que efetivamente não pode mais ser desfeito, mas mudando a maneira pela qual vemos o que fizemos e fazer as pazes com as forças – partes estranhas, mas nossas – que não podíamos ver até então.

psicoses

 

Pessoal, na última aula do ano, vou falar sobre a seção final do texto “O Inconsciente”, de Freud (1915). Para quem quiser acompanhar o resumo comentado que fiz:

https://docs.google.com/presentation/d/1JLBzWX11WFOsP3YxuGwufIc6sGAyfPHdKWDfk2_Kz4U/edit?usp=sharing

Pessoal, os dois livros que organizei sobre “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, estão disponíveis de forma gratuita nos links abaixo:

direito e literatura

https://fabiobelo.com.br/wp-content/textos/direitoeliteratura.pdf

psicanálise e racismo

https://fabiobelo.com.br/wp-content/textos/psicanaliseracismo.pdf

seminario clinico

 

Seminário clínico, a partir dos textos de Freud, exclusivo para quem é assinante do canal.

Cronograma:

https://docs.google.com/document/d/1pW4mbTVki9mh9J9D11SA7RTCtW2vAwhL2UK6IXvZUUM/edit?usp=sharing

 

Para tornar-se assinante:

https://www.youtube.com/channel/UCpp6l9j-Tcf6dFRLQazHsYg/join

Apenas para os membros do grupo brasileiro de pesquisa Sandor Ferenczi. Depois, o vídeo da apresentação vai para o canal do youtube do grupo!

Meu texto é esse aqui e está aberto a críticas e comentários.

https://docs.google.com/document/d/1hVxc8VnAz0pteJimJivzIHOO8XPTkik6gDU98ow9QJY/edit?usp=sharing

 

inquietações